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SINOPSE
Entenda este encontro da forma que achar melhor, o mais importante é que Chris e Annie um dia se esbarraram e, num momento mágico descobriram uma amizade que culminou num incomensurável amor. Algumas das virtudes de Chris o faziam ser um excelente pediatra, visto que sua sensibilidade, paciência e boas palavras, funcionavam como remédio para as aflições de seus pequenos pacientes. Enquanto Annie, espontânea, inteligente, uma mulher de alma linda e cheia de alegria, levava pinturas belíssimas e coloridas para a vida do marido, algo que ele passou a amar profundamente. Ambos eram sempre bem humorados, e se dedicando mutuamente com uma incurável cumplicidade, definitivamente se sentiam feitos um para o outro. Esse vínculo inabalável deu origem a dois filhos, Ian e Marie, e aquela se formou uma das raras, mas exemplares definições de família perfeita.

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Durante certa manhã uma calamidade sem tamanho desabou sobre o casal, seus filhos foram mortos num acidente de trânsito quando se deslocavam para a escola. Aquela triste situação magoou muito o espírito de Annie, e incrédula com a falta de sutileza com as chagas que a vida lhe trouxe, mergulhou em uma profunda fase de depressão. Chris estava sempre presente e, não se agarrando apenas em promessas quebradiças de um matrimônio carnal, mas sim num amor de carinho que transcendia qualquer explicação, se manteve o inabalável companheiro quando Annie mais precisou. E assim, resgatando-na dos vales das sombras, devolveu um pouco de luz aos olhos de sua eterna amiga. A vida continuou difícil, a perda de dois filhos maravilhosos não era algo superável, porém ainda unidos, seriam capazes de se ajudar e continuar a viver um dia após o outro.

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Quatro anos se passaram após a dolorosa perda, e finalmente quando o casal estava feliz de novo, Chris, assim como os filhos, também se envolve em um acidente de trânsito e morre. As eventualidades seguidas de desastres, devastam toda estrutura emocional de Annie. Primeiro os filhos, e agora o marido. O que sobrava para ela? Annie não aguentou, e consumida pelo sentimento de culpa, tirou a própria vida. Chris não deixou de existir após sua partida, pós morte, alcançou o paraíso belo do que imaginava dos quadros de Annie e, enquanto lá, soube do suicídio da esposa. Annie não alcançou o mesma paz que Chris, como causadora da própria morte e tendo quebrado as leis naturais da vida, teria de se manter pela eternidade no seu próprio inferno de culpa. Isso era imutável e, nada e nem ninguém, seria capaz de tirá-la de lá. – “O que as pessoas chamam de impossível, são as coisas que elas ainda não viram.” – se agarrou em sua própria convicção o inalterável Chris, enquanto se aprofundava no literal inferno em busca de seu eterno amor.

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COMENTÁRIOS
Algumas coisas precisam ser como são, e preciso dizer, minha experiência com Amor Além da Vida (What Dreams May Come, 1998), só veio agora, anos após seu lançamento, quando assisti com alguém que amo profundamente e pela qual, sim, eu desceria ao inferno. Todos os dias sou grato por cada pequeno gesto de titânicas experiências que sou presenteado, então não se surpreenda se neste episódio sentir alguém estar mais piegas do que o normal.

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Antes de começar a esmiuçar e, eu me perder em reflexões sem fim sobre metafísica, vamos falar do filme e seus aspectos gerais. Este é um drama dirigido por Vincent Ward, adaptado do romance homônimo de Richard Matheson. Aqui temos uma série de elementos bem consideráveis, e começando pelo absolutamente inquestionável elenco, vemos Robin Williams dando vida a um homem seguro e íntegro, com palavras sempre bem pensadas e de humor inteligente. Com uma atuação densa e cheia de carga emocional, considero este o seu melhor papel quando distante da comédia. E se por  um lado ele brilha reluzindo através de outros atos passados no cinema, Annabella Sciorra não tinha a mesma expressividade, porém isso passa longe de colocá-la como mera coadjuvante. Considero ela ser o catalisador de todo o peso dramático aqui, pois encarna verdadeiramente o semblante de uma mulher consternada pela angústia e um sofrimento incalculável. Da esposa e mãe, confiante e radiante, Annie se transforma numa pessoa depressiva, que desejava apenas um pouco de misericórdia, e seu desempenho é algo que toca a alma. Cuba Gooding Jr. também dá as caras, e como sempre de simpatia reluzente, vive um Albert Lewis assertivo e de espírito evoluído, servindo como guia moral para Chris. Com uma parcela menor de responsabilidade, mas ainda assim trazendo mais um trabalho magnífico.

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De produção luxuosa, Amor Além da Vida mais parece uma super peça teatral da Brodway, mostrando belíssimas e fantásticas alegorias de proporções colossais em meio lindas cenas preenchidas por computação gráfica. Tudo começa radiando numa fotografia lúdica e colorida de um modernismo abstrato de tirar o fôlego, até que seu extremo antagônico ganha espaço, num tom saturado e enevoado de caos e atormento. E de maneira mágica, somos transportados por todo tipo de sensação, acompanhando ambientes com planos ousados e criativos. A trilha sonora é de ninguém menos que Michael Kamen, compositor genial que sempre encontra o espírito necessário para dar atmosfera aos seus trabalhos. Sua música simplesmente é uma coisa linda, transmitindo uma odisseia que vagueia do regozijo ao sombrio, permitindo que mesmo fora do filme e em uma nova visita à sinfonia, possamos fechar os olhos e enxergar tudo mais uma vez.

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COMENTÁRIOS COM SPOILERS
Como a natureza funciona? Há um Gerente que defina as regras e o destino do que entendemos como casualidade? Esta é uma grande pergunta que todo tolo faz e refaz praticamente todos os dias, mesmo sendo ciente de que não conseguirá uma resposta. Alguns ousarão afirmar saber, e convictos, serão firmes em tentar impor suas definições da realidade e do que há além, no metafísico. Seja por necessidade de crer ou um mero querer, quando o sentimento é honesto, é sempre algo bom. Quem disse que algo mesmo que inconcreto precisa ser ou não verdade uma vez que faz bem? A vida é bem acelerada, e se confortar em certas ideias pode fazer que os sacolejos das turbulências sejam menos dolorosos. No entanto isso precisa ser sincero, fé não é algo que escolhemos ter ou não, vem da combinação do nosso ambiente e da nossa própria natureza. Eu particularmente gostaria de ter minha vida facilitada desta maneira, ser menos questionador e simplesmente aceitar pacotes de ideias, mas estaria eu me enganando. Isso quer dizer que eu seja alguém pé no chão? Meu agnosticismo condiz bem mais com a proposta do filme do que eu queira admitir.

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O personagem Albert, que mais tarde Chris descobre ser Ian, seu filho, diz a ele que sim, existe um Criador, no entanto eu não consigo pensar isso ser muito diferente do que a própria realidade projetada de paraíso pessoal constrói. Assim como Chris arquitetou seu próprio mundo, creio que a mesma mecânica funcione para todo o resto. Da mesma forma que deu luz a uma realidade cobiçada, qual reflete o quadro que a mulher que ama pintou, ele poderia ter seu próprio axioma onde um Ser Celestial a ele existiria. Em outras palavras, se sua necessidade se conforta com a existência de Deus, a você ao menos, Ele vai simplesmente existir. E isso compreendo ser o potencial primordial da nossa consciência, com direito a quem ler, compreender isso como autoajuda barata caso queira. Minha crença pessoal se agarra muito nisso, porém numa constante eu insiro, retiro, as vezes desmonto tudo e faço de outro jeito.

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Quando Chris é comunicado sobre o suicídio de Annie, e sobre as regras do exílio de eterna penitência, mais uma vez ele dita que sua realidade não é imutável. Não importava a austeridade dos regulamentos divinos, ele era senhor da próprio caminho, e Annie era parte inseparável dele. Nem seu próprio Deus ou de outro, saberia mais do que ele sobre o alcance do amor que sentia. Chris caminhou firme, nunca baixando a guarda, nunca perdendo o controle, e nem ao mesmo o humor. Em profundas trevas de agonia, se concentrava em seu único objetivo, encontrar sua alma gêmea se guiando por que via dentro de si. Como dois pequenos barcos que colidem num vasto mar de improbabilidade, desta vez é Chris que vai de encontro à Annie.

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Inevitavelmente Chris a encontra, porém a alma de Annie estava completamente destruída. Seu sentimento de dor vinha da culpa, por acreditar que suas  decisões talvez pudessem ter salvo a vida de todos aqueles que ela amava. Ela mesma levar os filhos para a escola, ou não pedir um favor de trabalho a Chris, em sua consciência impediria de qualquer coisa ruim acontecer. Não importava, Chris sabia que nada daquilo era culpa dela, mas compreendia a natureza de sua profunda angústia. Como o companheiro e paciente amigo, buscou acessar a memória da esposa com fim de encontrar aquele sopro de amor que ele sabia estar lá. Mergulhado em tanta amargura, não bastava apenas lutar contra a ordem vinda de andares acima, havia um preço, qual ele pagaria sem pensar.

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Vendo Annie não conseguindo se erguer da escuridão onde havia caído, Chris decidi pelo ato mais nobre de sua existência, compartilhar sua eternidade estando ao seu lado, mesmo que significasse existir num inferno de melancolia e sem memórias. Sacrifício, esse era o preço e a chave que mostraria à Annie o quanto Chris a amava e faria por ela. Seus olhos recobram o brilho, e por um breve momento era ela quem deveria resgatar o  marido dos perigos do limbo. Os dois estavam completos, sendo um para o outro o alfa e o ômega, e mostrando aquele ser um ciclo infinito de reencontros improváveis e inevitáveis. Chris e Annie decidem voltar para mais uma vez renascerem, onde se encontrariam, e juntos vivenciariam novas experiências como almas inseparáveis.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Robin Williams, Cuba Gooding Jr., Annabella Sciorra, Max von Sydow, Jessica Brooks Grant, Josh Paddock, Rosalind Chao, Lucinda Jenney, Maggie McCarthy, Wilma Bonet, Matt Salinger e Carin Sprague compõem o elenco. Baseado em What Dreams May Come, romance homônimo de Richard Matheson, Amor Além da Vida é um filme estadunidense dirigido por Vincent Ward. O roteiro adaptado é de Ronald Bass, com produção de Stephen Deutsch e Barnet Bain. A trilha sonora é de Michael Kamen, com cinematografia de Eduardo Serra. A produção usou os estúdios da Interscope Communications, e o longa foi distribuído pela PolyGram Filmed Entertainment. Seu orçamento de 85 milhões, gerou uma receita de 71.5 milhões de dólares.

CONCLUSÃO
Não consigo dar uma nota para este filme, ele é simplesmente algo único, e coisas assim não se comparam com outras. Assistir sem saber o que viria foi algo mágico e, admito, chorei ao ver, e mais ainda ao escrever. Quis dar o meu melhor, não sei se alcancei, embora a pessoa que mais me importa agradar, fique feliz com uma simples risada. Amor Além da Vida não poderia ter um título melhor, e mesmo eu tendo chegado atrasado até ele, considero um filme obrigatório para qualquer um. Para uma melhor experiência, assista com a pessoa da sua vida.

Você é tão maravilhosa que faz um homem preferir o inferno ao invés do céu só para ficar com você.

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