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QUEM É A DAMA DO CRIME?

Bem, eu não sabia que Agatha Christie, escritora britânica (1890-1976), era assim conhecida: Rainha ou Dama do Crime (“Queen/Lady of Crime”, no original em inglês). Meu primeiro contato com essa mestra do romance policial foi justamente com o livro “O Caso dos Dez Negrinhos” ou “E não sobrou nenhum”, como hoje é mais conhecido.

Lembro que este livro, de capa amarela e com uma estátua de um negrinho, me fascinou. Estava em um biblioteca de escola de Ensino Fundamental em João Pessoa (PB). Estava no meu oitavo ano do ensino fundamental e ninguém frequentava aquele lugar cheio de bagunça e de paredes branquíssimas. A bibliotecária me recebeu toda educada e admirada de ter gente fuçando as pilhas de livros. Mas Agatha Christie estava lá.

Levei o romance para casa e devorei cada página. Final surpreendente. “O caso dos dez negrinhos”, e prefiro chamá-lo assim, foi meu primeiro surto de leitura. Li 29 livros da autora adquiridos por meio de sebos, livreiros, fazendo trocas e negócios.

Mas por que Agatha Christie é uma leitura tão esplêndida? Porque as pistas dos crimes estão ao longo da narrativa. A autora faz questão de “esfregar” na nossa cara a resolução, os indícios que deixamos passar. Eu me sentia desafiado a descobrir junto com os detetives da autora, com Hercule Poirot principalmente, o criminoso e suas motivações. Por isso me decepcionei tanto ao ler Arthur Conan Doyle e seu Sherlock Holmes que aparecia com uma solução pronta, de surpresa e dada para o leitor. Agatha Christie constrói junto com quem lê, já Doyle é fast food: tudo esta solucionado de antemão. Chegou um tempo, ao longo de tantos livros lidos da Dama do Crime, em que eu descobria junto com ela o assassino e sentia-me muito inteligente e observador.

Nas linhas abaixo selecionei as histórias da autora que mais me marcaram. Estão colocados em ordem cronológica e não afetiva. Alguns deles foram adaptados para outras mídias e fizeram tanto sucesso quanto o romance escrito. Mas confesso-lhes que nada nos tira o sabor de se sentir um ás da observação e solucionar crimes. Leia Agatha Christie e tenha essa sensação.

 

The Murder of Roger Ackroyd, 1926

SINOPSE
Na pequena vila inglesa de King’s Abbott, o passatempo são justamente as fofocas. E não poderia deixar de ser diferente, as pessoas da elite local são o principal alvo dos comentários maldosos. No centro das discussões está um abastado senhor, Roger Ackroyd, que acaba sendo alvo de um grupo de fofoqueiras que tem em Caroline Sheppard sua representante mais ferina. Os boatos ficam ainda mais exagerados quando a recente viúva, Miss Ferrars, é acusada de ter um relacionamento com Ackroyd. Isso acarreta o suicídio da mulher.

A fim de se abrir a cerca dos acontecimentos recentes, Ackroyd convida o médico James Sheppard, irmão de Caroline e amigo, para jantar e revela fatos desconcertantes. Miss Ferrars matara o próprio marido e era chantageada. Ackroyd recebeu uma carta que revelava quem era o chantagista, mas não tivera tempo de descobrir. A morte também chegou a sua porta.

O caso ficaria insolúvel se por pura coincidência o detetive Hercule Poirot não estivesse passando uma temporada de férias a cuidar de seu jardim de abóboras na pequena vila. Ele se junta ao Doutor Sheppard para tentar descobrir a trama por trás da morte de Roger Ackroyd.

COMENTÁRIOS
Quando fora lançado, este livro vendeu cerca de 5 mil exemplares, o sétimo livro mais vendido da autora. A narração é do Doutor Sheppard que termina sendo auxiliar de Poirot nas investigações. Funciona como o Watson de Sherlock Holmes, mas a comparação para por aí. Aqui as falas dos personagens são extremamente reveladoras assim como aquilo que não é dito.

 

Murder on the Orient Express, 1934

SINOPSE
Considerado o maior caso do detetive Hercule Poirot, o cenário é o luxuoso trem Expresso do Oriente que em sua época áurea ligava Paris a Constantinopla (atual Istambul). Pouco depois da meia-noite o trem fica preso e parado na neve devido ao mal tempo. Surpreendentemente cheio para aquela época do ano, na manhã seguinte um passageiro é encontrado morto com doze facadas. Isolados  no trem “encalhado” no gelo, Hercule Poirot terá que usar de toda a sua perspicácia para descobrir o assassino.

COMENTÁRIOS
O livro é baseado no verdadeiro caso de um sequestro ocorrido nos Estados Unidos, em 1932 e vendeu três milhões de cópias em seu ano de lançamento. A narrativa revolucionou o gênero devido ao seu final dramático e dilema moral. É uma das obras de Agatha Christie mais adaptadas para televisão e cinema. Há duas versões cinematográficas que merecem destaque. A primeira, de 1974, é a mais famosa, tem Albert Finney como Hercule Poirot e a direção de Sidney Lumet; já a última é de 2017 com Kenneth Branagh dirigindo o filme e também interpretando o famoso detetive da trama.

 

The A.B.C. Murders, 1936

SINOPSE
Neste romance, Hercule Poirot e o Capitão Hastings, companheiro de muitas aventuras, se deparam com um assassino em série que desafiará as capacidades dedutivas e observadoras do detetive belga e do oficial inglês.

Após retornar da América do Sul, o Capitão Hastings se encontra com seu velho amigo, Hercule Poirot, em seu novo apartamento em Londres. Nessa ocasião o belga lhe apresenta uma carta misteriosa que recebeu, assinada com “A.B.C.”. Nela está detalhada um crime que deve ser cometido muito em breve, que Poirot suspeita ser um assassinato.

Duas outras cartas de mesmo teor chegam logo a seu apartamento, cada uma antes de um assassinato sendo realizado por A.B.C. Elas estão em ordem alfabética: Alice Ascher, morta em sua tabacaria em Andover; Elizabeth “Betty” Barnard, uma garçonete sedutora morta na praia de Bexhill; e Sir Carmichael Clarke, um homem rico morto em sua casa em Churston. Em cada assassinato, um guia ferroviário da ABC é encontrado ao lado da vítima.

COMENTÁRIOS
Esta é uma obra para entender as referências. Claro que você não precisa ser um especialista em Agatha Christie, mas isso traz um gosto a mais para imersão nesse romance policial. Por exemplo, Poirot cita sua tentativa infrutífera de se aposentar plantando abóboras, como aparece em o Assassinato de Roger Ackroyd, ou adianta o enredo de Cai o pano (1975), seu último caso. Então:

“Não seria de admirar que terminasse investigando sua própria morte”, comentou Japp, rindo gostosamente. “Eis uma boa ideia, sim, senhores. Devia ser ser tema de um livro.” “Hastings é quem poderá fazer isso”, observou Poirot, piscando o olho para mim. “Seria realmente divertido”, disse Japp, rindo de novo.

Outro ponto chave desse livro é a mistura muito bem-vinda que combina uma narrativa em primeira pessoa e em terceira pessoa, algo já abordado por Charles Dickens. Uma narrativa em terceira pessoa que é reconstituída pelo Capitão Hastings, narrador-personagem da história.

Recentemente fora filmada uma minissérie justamente embasada neste romance. Poirot, interpretado pelo genial John Malkovich, conta com a direção de Sarah Phelps, nesta obra de 2018 empreendida pela BBC One. Além disso inspirou um jogo, point-and-click para consoles e computadores de mesa desenvolvido pela Artefacts Studios: Agatha Christie – The ABC Murders (2016).

 

Death on the Nile, 1937

SINOPSE
A trama gira em torno do casal Linnet Ridgeway e Simon Doyle. Ela é bonita, amada e rica; ele, ex-namorada de da melhor amiga, Jacqueline de Bellefort. Ao irem passa sua lua de mel no Egito, são seguidos pela enfurecida Jacqueline que se mostra presente em todos os momentos. Mas quando um dos lados do triângulo amoroso é assassinado, cabe a Poirot, que está de férias, descobrir quem cometeu o crime. O que poderia parecer óbvio pode resultar em uma tarefa hercúlea para o detive belga, afinal há muitos indivíduos incomuns entre os viajantes: senhoras idosas, escritora de romances eróticos, médico, um jovem de ideais comunistas, entre outros.

COMENTÁRIOS
Esta obra parte de um cenário semelhante ao Assassinato no Expresso do Oriente: o crime se dá em um meio de transporte, um cruzeiro. O livro foi adaptado para o teatro em 1949, (não pela própria autora), mas não tinha Hercule Poirot como protagonista. É outro grande sucesso de adaptações e, para o cinema, a mais famosa é a de 1978 com direção de John Guillermin tendo Peter Ustinov atuando como Poirot. No entanto, dado o sucesso da versão de Kenneth Branagh com o Assassinato no Expresso do Oriente (2018), o diretor e ator pretende fazer uma “continuação” (se é que podemos chamar assim) da trama com A Morte no Nilo tendo um elenco de peso, inclusive com Gal Gadot, a Mulher Maravilha, em um dos papéis principais.

Cabe ressaltar, ainda, que há um jogo Agatha Christie: Death on the Nile, para computador que é inspirado da obra e no qual o jogador precisa procurar pistas no cenário com base em dicas (jogo do ano de 2007 na categoria “Seek and Find” adventure). Com 12 níveis e diversos mini-games.

 

Ten Little Niggers, 1939

SINOPSE
Oito pessoas, aparentemente sem conexão entre si, são convidadas à intrigante “Ilha do Soldado”, na costa de Devon, pelo desconhecido U. N. (Ulick Norman) Owen e sua esposa. Mesmo sob diferentes pretextos, e não conhecendo os anfitriões, a atração de serem convidados para um lugar tão badalado pela mídia é mais forte que a desconfiança. Recebido por um casal de criados, os convidados precisam esperar pela chegada dos donos do lugar, uma ilha inóspita, cujo acesso só é possível por meio de um barco.

Isolados por uma terrível tempestade, na noite da chegada, um gramofone é ouvido. A voz tece acusações severas aos convidados, responsáveis direta ou indiretamente pela morte de alguém. Seus destinos passam a seguir, precisamente ou em parte, o que diz um poema sinistro emoldurado nos quartos da mansão, uma cantiga infantil que narra a sequência de mortes que acontecerão ao longo dos capítulos.

COMENTÁRIOS
É o livro, um dos mais famosos da autora (e minha primeira paixão). É a narrativa de mistério mais vendida no mundo com 100 milhões de cópias e um dos livros mais vendidos de todos os tempos, o sexto título de acordo com a Publications International.

Seu título original, Ten Little Niggers (Dez negrinhos, em tradução livre), é baseado em uma cantiga tradicional inglesa. Acusado em solo estadunidense de ser um título racista, acabou em alguns lugares recebendo o nome And Then There Were None (E Não Sobrou Nenhum)o que termina sendo um terrível spoiler. Dessa forma versões atuais no mercado editorial brasileiro imitaram essa postura e trocaram o nome da obra.

Como mais de treze adaptações televisivas ou cinematográficas, desde produções inglesas, americanas e até indianas (Bollywood), tem na versão de 1945, And Then There Were None, dirigido por René Clair a mais famosa. Inspirou ainda a minissérie britânica de 2015 da BBC One, além de ter sido referência para jogo japonês (Umineko no Naku Koro ni), episódios de Family Guy (primeiro e segundo episódio da 9ª temporada), entre outros.

 

The Labours of Hercules, 1947

SINOPSE
Depois de uma conversa com um amigo, Poirot constata que os pais deveriam ter mais cuidado na escolha do nome de seus filhos. Seu nome Hercule, por exemplo, faz referência ao herói grego de enorme estatura, força descomunal e filho de Zeus. Isso em nada reflete o baixinho bigodudo, gorducho de cabeça oval e calva que é o próprio Poirot. Então o detetive se sente tentado a buscar cumprir 12 desafios ao altura do herói grego que lhe deu nome, seus próprios Doze trabalhos. Assim passa a escolher a dedo os casos para cumprir esta árdua tarefa ao logo de doze contos com os mais diversos crimes, alguns mais complexos, outros mais simples. Todos com uma solução genial.

COMENTÁRIOS
Esta é uma obra sem muita complexidade da autora. É uma boa coletânea de contos leves e por sua própria natureza, de resolução rápida. Vale a pena, para quem curte mitologia grega (como esse cara que vos escreve), ver como a autora dá uma roupagem ou interpretação moderna para os monstros clássicos, aqui transformados em situações ou criminosos monstruosos. Ao final a Dama do Crime atualiza o herói moderno mostrando valores que sintetizam a atualidade: Poirot tem seus próprios dons divinos muito mais ligados ao intelecto do que à força bruta.

 

Curtain, 1975

SINOPSE
Este é último caso de Hercule Poirot. E como anunciado em Os Crimes ABC, o próprio detetive está no centro do mistério. Já bastante velho, o detetive belga volta ao local de seu primeiro caso, O Misterioso Caso de Styles (1920), à procura de um assassino. Para ajudá-lo, contará com seu fiel amigo, o Capitão Arthur Hastings, já viúvo. Hercule Poirot conseguiu reunir cinco crimes que, aparentemente, tiveram a participação do mesmo assassino que se encontra na mansão de Styles. O título faz referência ao final de um peça de teatro: cai o pano, fecham-se as cortina e eis o fim de tudo.

COMENTÁRIOS
Esta obra foi publicada pouca antes da morte de Agatha Christie, no entanto ela já se encontrava escrita desde a década de 1940 e mantida trancada em um cofre em um banco. A autora temia que não sobrevivesse à II Guerra Mundial, como também visava a resguardar de alguém se apropriar de seu personagem após sua morte e fazer uso de forma indevida. Claro, ainda havia a praticidade de garantir uma fonte de renda para seu esposo e sua filha. Por isso a obra só foi autorizada para publicação quando a autora não podia mais escrever.

O fato fora tão marcante que em 6 de agosto de 1975, o jornal New York Times publicou um obituário de Poirot na primeira página (com fotografia) para assinalar a sua morte (desculpa, não deu para poupar-lhe desse spoiler). Mas ler esse romance, de final igualmente surpreendente, é apreciar o “canto do cisne”: uma obra magistral antes de fechar os olhos!

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