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SINOPSE
114_01Kenji é um cara adulto perto dos quarenta, solteiro, morando com a mãe e, quem cuida da pequena Kanna, sobrinha deixada por sua irmã qual desconhece o paradeiro, e nem ao menos sabe quem é o pai. Passando por uma situação de aperto após transformar sua pequena loja numa conveniência franqueada, é visitado por dois investigadores da polícia procurando informações sobre uma família vizinha desaparecida por completo e de forma misteriosa. Aquele era um período bem estranho, com a epidemia de um vírus ainda não compreendido ceifando vidas pelo mundo, enquanto no Japão uma seita fanatizava todas as classes de pessoas. E o mais curioso é que esse grupo utilizava um símbolo que não era estranho para Kenji, lhe resgatando desorganizadas memórias de quando garoto. Uma notícia triste chegava, Donkey, um bom amigo de infância havia morrido por suicídio ao se atirar de um prédio. Todos aqueles amigos de décadas então se reuniram em seu funeral para prestar homenagens e se despedir, momento onde muito se reviram após muito tempo. Colocando o papo em dia comentam sobre a suspeita de Donkey ter se juntado ao culto do autointitulado ‘Amigo’, aquele com o símbolo de um olho com uma mão apontando como seta para cima, e que Kenji já havia visto antes discretamente desenhado numa parede da casa daqueles vizinhos que sumiram. Os amigos se entreolham questionando quem havia criado aquilo, cogitando que provavelmente algum deles deveria ser o ‘Amigo’, já que ninguém mais conhecia aquele desenho. Buscando nas lembranças eles iam trazendo informações adormecidas, e recordaram de terem enterrado uma cápsula do tempo. Saindo do funeral o grupo segue para onde acreditam ter escondido seus segredos da infância, e para surpresa dos mesmos, encontram o que buscavam. Era uma lata de metal que continha além de objetos sem relevância, também desenhos sem muito sentido, e uma bandeira com o tal símbolo das brincadeiras que faziam. O Livro de Profecias, também lembraram disso, embora não estivesse naquela lata. Era nele que o grupo. Naqueles escritos de criança, imaginavam um futuro onde um poderoso vilão surgia com os planos de destruir o mundo, e que apenas a união deles seria capaz de impedir. O problema era que a realidade de então, era muito parecida com aquelas histórias de menino.

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MEUS ERROS DE MEMÓRIA
Vocês já passaram pela situação de assistir algo que ficou marcado na sua memória por um motivo não muito claro? As vezes acontece por conta de uma cena muito impactante, um personagem interessante ou até mesmo por sua estranheza. Comigo neste caso foi uma mistura de todas essas coisas. Não recordo com exatidão o período, mas visto que este é um filme de 2008, e estou me referindo ao primeiro da trilogia por enquanto, vi bem mais a frente do que eu imaginava. No meu subconsciente eu tinha visto junto com os meus amigos de infância, lá por 1997 ou 1998, mas definitivamente não é o caso, o longa é dez anos mais novo. Ou seja, eu criei uma falsa memória. E o curioso é que imagino a razão, e está diretamente relacionada ao conteúdo do filme. Visto que nele existe um grupo de adultos por volta dos quarenta anos que tenta quecobrar a infância, enquanto somos apresentado a um monte de flashbacks. O que me leva a entender, que eu mesmo, por saudosismo do convívio com os meus amigos, fiz uma mistura absurda de informações antes de engavetar no cérebro. Não é algo relevante para ser dito, mas particularmente achei essa revisão de realidade bastante interessante.

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O QUE É 20TH CENTURY BOYS?
Esta provavelmente vai ser a tarefa mais difícil das minhas aventuras de escrever, fazer ser claro do que se trata 20th Century Boys, ao mesmo tempo que mantenho o foco em te convencer do quanto ele é interessante, e sem liberar os spoilers essenciais para tal convencimento. O que talvez já tenha dado para entender, é que suas “cerejas” do bolo, sim, aqui existem muitas cerejas, sejam seus complexos e atmosféricos segredos. Mas primeiro vamos entender suas origens e um pouco sobre seu criador. 20th Cenruty Boys originalmente é uma mangá de mistério e ficção científica criado por Naoki Urasawa em 1999, que rendeu 22 volumes, e foi finalizado em 2006. Logo na sequência, ainda no mesmo ano, lançou mais 2 volumes do intitulado 21th Century Boys. O autor até então pouco conhecido publicou simultaneamente enquanto trabalhava neste que falamos agora, Monster, uma obra popular entre os amantes de mangá, série de mistério finalizada em 2001.

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O mangá 20th Century Boys alcançou grande sucesso, lhe rendendo o Prêmio Kodansha Manga em 2001, o Prêmio de Excelência do 6º Japan Media Arts Festival em 2002, o Shogakukan Manga Award também em 2002, o Prêmio Internacional de Festival de Quadrangas de Angoulême para uma série em 2004, o Grande Prêmio da Associação de Cartoonistas do Japão em 2008, o Prêmio de Melhor Comic da Seiun em 2008, o Prêmio de Melhor edição dos EUA de Material Internacional pela Eisner em 2011, e para finalizar, recebeu novamente um repeteco deste último prêmio da Eisner em 2013. Então agora vamos ao que interessa mesmo, falarmos sobre sua versão em live-action, que não chega a ser tão rica como o mangá, afinal, essa é a coisa mais normal em se tratando de adaptações, mas que mesmo assim é um trabalho fabuloso e merecedor de atenção, tanto de quem só curte cinema, quanto dos otakus tarados pelos trabalhos brilhantes de Urasawa.

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CONCEITOS CINEMATOGRÁFICOS
A adaptação do mangá 20th Century Boys para o cinema foi divida em três partes, e são elas: 20th Century Boys: Beginning of the End (2008), 20th Century Boys 2: The Last Hope (2009) e 20th Century Boys 3: Redemption (2009). Seu título, que em tradução livre seria Garotos do Século 20, é emprestado de uma música da banda inglesa de folk e rock clássico, T. Rex, que fez bastante sucesso nos anos 60 e 70. A estrutura conceitual das três partes é a mesma, com uma película granulada sem muito exagero, em certos momentos traz uma câmera trêmula, e mostra sofisticação com cenas induzindo visão em primeira pessoa, com direito a olho de peixe e tudo mais. A direção ao mesmo tempo que mostra versatilidade na sua forma de filmagem, não faz questão de fazer isso parecer uma exibição gratuita de técnicas, tudo é muito natural e fluído, informando que a linguagem visual tem uma única intenção, valorizar a atmosfera pesada do roteiro. E o resultado no meu ponto de vista ficou fantástico. Temos um filme que se você abrir aleatoriamente em qualquer ponto terá a sensação de ser uma obra barata, praticamente amadora, mas definitivamente passa muito longe disso.

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ROTEIRO CABULOSO!
Como dito antes, o filme é separado em três partes, mas deve ser enxergado como uma única peça, assim como na trilogia O Senhor dos Anéis. Indo e vindo no tempo, o roteiro se foca em Kenji, que não escolhe, mas é notado pelos amigos desde a infância como um líder. Desajeitado, pouco esforçado, e até com uma certa lentidão de raciocínio, é reconhecido pelos outros por sua lealdade e força de vontade natural. Quando falamos da primeira parte, Beginning of the End, o foco da narrativa se agarra nele, explorando pequenas recuperações de memórias de períodos diferentes do passado, para ir montando um intrincado quebra-cabeças que se desmonta e remonta constantemente. O grande mistério aqui é desvendar quem é aquele que chamam de Amigo, já que todo o pacote inventado pelo grupo quando crianças, está sendo posto em prática literalmente por aquele homem misterioso. Desde a aplicação do símbolo inventando pelos jovens, quanto as perigosas promessas de um fim do mundo. Para todos o Amigo é visto como um profeta, uma verdadeira personificação divina, mas para Kenji e seus amigos, aquele só poderia ser um dos garotos que presenciaram suas invenções inocentes do passado, e decidiu brincar com o restante do grupo enquanto ascendia para o ato final do Livro de Profecias. A narrativa da adaptação preserva os principais e mais importantes aspectos que são vistos no mangá, e isso tendo o controle de qualidade do próprio Naoki Urasawa. Particularmente considero o roteiro uma obra prima, por conseguir controlar e manter a clareza mesmo com tantos personagens e elementos complexos se destruindo e reconstruindo, sem nunca perder sua atmosfera de tensão.

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SENTIMENTO DE ANGÚSTIA
Eu pelo menos mergulhei de cabeça na trama, e identifiquei bastante similaridade desta ficção com a nossa realidade de fim de 2019 no Brasil, onde temos mais do que nunca, um comportamento fanatizado de pessoas carentes que se agarram num personagem de idoneidade ao menos discutível. Quando o roteiro precisa te chocar mostrando o nível de alienação daqueles que seguem o Amigo, ele não brinca em serviço, trazendo de forma explícita a brutalidade com que aplicam violência contra aqueles que se opõem, ou mesmo falham no entendimento do líder hierárquico presente no momento. O sentimento é de angústia por saber que aquela atitude fanatizada e cega, não se restringe apenas a ficção, e se não cuidarmos de dissuadir, pelo menos moralmente, esses núcleos de gente mentalmente perturbadas, deixaremos só de assistir de longe, para ter aqui no nosso quintal, uma intolerância religiosa institucionalizada, e talvez até mesmo aparelhada pelo Estado. Procuro evitar ser literal com política nos nossos conteúdos, mas existem momentos onde sermos omissos, é estarmos assumindo cumplicidade com o errado. E quem acompanha o NerdComet sabe, aqui não abrimos mão de expressarmos nossos opiniões e reflexões, quem dirá num instante tão sombrio quanto o que vivemos. Conspirações e manipulações em massa nunca são coisas inofesivas, como sempre dizem meus velhos e valiosos  amigos do canal Meteoro Brasil no Youtube.

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TRILHA SONORA
20th Century Boys: Beginning of the End abre ao som do inglês T. Rex, e na mesma vibe também traz Like a Rolling Stone de Bob Dylan. O humor das crianças do filme faz criar Bob Lennon, uma música composta na história por Kenji, homenageando personagens da cultura pop que dispensam apresentações. O japonês Ryomei Shirai, compositor de dezenas de trabalhos para jogos eletrônicos, animes e filmes, é quem assina o ‘score’ da trilogia 20th Century Boys, além de fazer o arranjo de Ai Rock Yû, um empolgante hard rock performado num concerto ao vivo no filme. Só fico devendo a explicação de informar se a banda era real ou apenas um arranjo montado para o longa. A letra é do próprio Naoki Urasawa, que também escreveu Brothers, e obviamente a já comentada Bob Lennon. Também temos a swingada Koi no Kisetsu de Taku Izumi, e Penelope, de Joan Manuel Serrat e Augusto Algueró, executada pela Grande Orquestra de Paul Mariat, com violinos, metais, e pianos belíssimos.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Toshiaki Karasawa, Etsushi Toyokawa, Takako Tokiwa, Teruyuki Kagawa, Hidehiko Ishizuka, Takashi Ukaji, Hiroyuki Miyasako, Katsuhisa Namase, Fumiyo Kohinata, Kuranosuke Sasaki, Shirô Sano, Mirai Moriyama, Kanji Tsuda, Takashi Fujii, Hanako Yamada, Arata Iura, Nana Katase, Chizuru Ikewaki, Airi Taira, Raita Ryû, Ibuki Shimizu, Kaoru Fujiwara, Riku Uehara, Tadashi Nakamura, Dave Spector, Rina Hatakeyama e Tomiko Ishii compõem o elenco.

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20th Century Boys: Beginning of the End
Lançamento:
30/08/2008
Direção: Yukihiko Tsutsumi
Roteiristas: Yasushi Fukuda, Takashi Nagasaki, Naoki Urasawa e Yûsuke Watanabe
Produtores: Morio Amagi, Xaypani Baccam, Ryûji Ichiyama e Nobuyuki Iinuma
Produtor Executivo: Seiji Okuda
Trilha Sonora: Ryomei Shirai
Orçamento: US$ 20.000.000
Faturamento Mundial: US$ 38.231.562

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20th Century Boys 2: The Last Hope
Lançamento:
31/01/2009
Direção: Yukihiko Tsutsumi
Roteiristas: Yasushi Fukuda, Takashi Nagasaki  e Yûsuke Watanabe
Produtores: Morio Amagi, Ryûji Ichiyama e Nobuyuki Iinuma
Produtor Executivo: Seiji Okuda
Trilha Sonora: Ryomei Shirai
Orçamento: US$ 20.000.000
Faturamento Mundial: US$ 29.502.213

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20th Century Boys 3: Redemption
Lançamento:
29/08/2009
Direção: Yukihiko Tsutsumi
Roteirista: Yasushi Fukuda
Produtores: Morio Amagi, Ryûji Ichiyama, Nobuyuki Iinuma e Futoshi Ohira
Produtor Executivo: Seiji Okuda
Trilha Sonora: Ryomei Shirai
Orçamento: US$ 20.000.000
Faturamento Mundial: US$ 48.397.818

CONCLUSÃO
Uma coisa eu posso te garantir, eu duvido muito que você já tenha sido exposto a uma trama tão intrigante e complexa como essa. 20th Century Boys com certeza não é conteúdo para qualquer tipo de pessoa, ele é estereotipado na pegada japonesa, e consideravelmente complicado de se compreender. Não por ser um conteúdo cabeça, mas por exigir bastante interesse e foco de quem se predispõe assistir, já que a número de informações necessárias para se entender o todo é elevado, e jogado embaralhado no colo da gente. Eu tenho um apego muito grande a este filme, e o considero dentro dos meus vinte favoritos, sem sombras de dúvidas. A trilogia 20th Century Boys é recomendada para maiores de 15 anos, e caso consiga acesso a essa obra prima pouco conhecida aqui no Brasil, espero que tire um ótimo proveito. E por favor, volte aqui para me dizer o que achou. Quero saber se sou louco sozinho, ou alguém mais se empolgou tanto.

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assinatura_dan

2 pensamentos

  1. Lembra que mencionei ter visto o filme em 1997?
    Pois toda essa narrativa de ser adulto e voltar à infância “memóricamente”(nem sei se exite essa palavra…) faz uma confusão em nossa mente.

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