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SINOPSE
Ao pé de uma gigantesca queda d’água, uma mulher bastante machucada e com uma flecha fincada nas costas, foge com um bebê de dois cruéis soldados. Acaba encurralada nas margens de um rio, sendo obrigada a lutar, e mesmo segurando uma criança, usa apenas uma das mãos para derrota-los facilmente, revelando ser uma hábil guerreira. Tentando seguir em frente, ela cai na água devido a exaustão, conseguindo apenas segurar num galho para não ser carregada pela violenta corredeira. Roga à Shiva por redenção de seus pecados. Pedindo que tomasse sua vida em troca da salvação daquele menino. Coloca-o acima de sua cabeça com o braço erguido, proferindo que ele deve viver para ascender ao trono de Mahishmathi e libertar seu povo. Mahendra Baahubali deve viver! Em sacrifício a mulher submerge, enquanto seus braços permanecem esticados até que o dia amanheça e o bebê seja salvo por membros de uma comunidade próxima.

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Adotado por uma mãe amorosa, ela sempre temeu pelos perigos de sua origem, porém o jovem menino era muito questionador. Mesmo que ela dissesse que ao topo da enorme cachoeira haviam demônios e monstros, ele teimava em querer subir para ver com os próprios olhos, e quando ninguém estava por perto, tentava incansavelmente a escalada. A criança se tornou um belo jovem, e o jovem se tornou um confiante e imponente homem. Sua mãe pedia por Shiva à Shiva, sim, aquele pequeno e frágil bebê recebera o nome de um Deus, Shiva, O Destruidor e Regenerador. Aquele que traz o bem e dá a Vida. Clamando para que o filho deixasse de tentar escalar aquelas enormes paredes, era guiada por Sage, o sábio da vila, a despejar inúmeros baldes de água sob uma pedra que simbolizava Shiva, um Lingam. Então Shiva, o filho, vendo sua mãe se esforçar tanto por suas crenças, quebra todos os paradigmas ao decidir remover aquele pesado monumento do lugar. Todos observavam o que seria um ato de blasfêmia, e relutam crer quando com uma força sobrenatural ele arranca do chão e levanta aquele símbolo sob os ombros. Shiva carrega o lingam enquanto todos os seguem com semblante de estarem assistindo o inacreditável. Inabalável e como se aquele peso não fosse nada, caminha pela cachoeira andando nas pontas dos pés, até repousar o emblema diretamente abaixo da queda d’água, onde Shiva poderia receber banho incessantemente. Toda a comunidade, e até sua mãe, ficaram orgulhosos em confiar que agora as bênçãos à todos seriam inesgotáveis.

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Uma máscara então cai da cachoeira, do lugar proibido onde Shiva não deveria ir. Agora, mais tentado do que nunca, é guiado e incentivado pela ilusão de uma belíssima mulher. Ele escala, inspirado por deuses. Cai novamente e volta a se levantar, várias vezes. Mas persistente e incansável, ele chega ao topo. Shiva vislumbra a mesma mulher de seu sonho acordado, só que agora ela foge de uma horda de sanguinários soldados por meio uma floresta escura e sombria. Acompanhando para tentar entender a situação, quase interfere, quando de repente ela se junta a outros guerreiros e derrota aquele pequeno exército. Continuando a se mover nas sombras ele mantém investigação, até que o grupo se reúne numa caverna, onde planejavam um novo ataque para libertar uma tal de Devasena. Então todos colocam máscaras como aquela que ele encontrou. Shiva estava em meio à uma revolução. E mal sabia ele que seu destino era de suma importância para a vida daquelas pessoas. Baahubali!

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COMENTÁRIOS
Não sou grande fã de filmes como Ben-Hur (1959), Tróia (2004), ou mesmo os com mais fantasia como a franquia O Senhor dos Anéis. Assisto e gosto sim, mas não sou do tipo que vira fã e precisa ver mais do que uma vez. No entanto acabei seduzido por essa obra do gênero sem nem perceber. Baahubali: O Início é um épico indiano que mistura elementos do hinduísmo com mitologias de outras culturas, e cria uma aventura sem precedentes para o cinema. A fascinante história criada por K. V. Vijayendra Prasad, conta a aventura de Shiva, uma criança que sobrevive graças ao sacrifício de uma mulher, e que sente dentro de si uma predestinação incontrolável. Contar detalhes sobre a trama é estragar as surpresas, e essa é um conto que tem muitas delas.

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Baahubali: O Início não é um filme perfeito, ele passa longe disso. A produção indiana acerta em muitas coisas, a começar pelo seu roteiro, mas falha um pouco nos aspectos técnicos visuais. Eu não sei precisar a razão, talvez seja devido ao orçamento não ser tão alto quanto a de produções ocidentais, o estúdio não ser competente, ou mesmo por prazos apertados, mas as cenas em computação gráfica em vários momentos são terríveis! Dão a aparência de videogame! Chegando a incomodar em tomadas com animais renderizados. Mas quando acertam a mão, o resultado é fabuloso! A cena com a cachoeira no começo do filme são de cair o queixo! Sim, aquilo tudo é feito em fundo verde! Essa inconstância no uso de CG que pecou um pouco, fazendo o filme não ser digno de uma nota 10. Porém são tantas as outras coisas maravilhosas no longa, que essas deficiências são completamente esquecidas.

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Os filmes indianos costumam ter peculiaridades bem interessantes, sendo uma delas as tradicionais dancinhas com a galera reunida. E em Baahubali: O Início isso não é diferente. O épico é recheado de momentos musicais cheios de charme e estilo, criando ainda mais a atmosfera carnavalesca que não se envergonha em momento algum de se esforçar para mostrar. Eu realmente não entendo o preconceito de algumas pessoas em criticarem tradições e formas de artes estrangeiras, afinal, não precisamos compreender os motivos delas serem como são, mas apenas ver o esforço dedicado em criar essas emoções e sensações, já é razão de sobra para respeitarmos a paixão com que expressam sua cultura. Recebo esses momentos musicais dos filmes como se visse uma produção da Disney, não ofende, não estraga, e é um elemento extra para ser apreciado.

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EXPLICAÇÕES COM SPOILERS
Após Shiva retornar para Mahishmathi para libertar sua mãe, que havia sido presa por vinte e cinco anos após a traição de Bijjaiadeva contra a Rainha Sivagami, ele ainda precisava entender sua origem, então Kattappa, o fiel protetor da realeza, lhe conta como chegaram naquele determinado momento. Bhallaladeva era filho legítimo de Sivagami com Bijjaiadeva, este último, irmão do Rei Maharaja Vikramadeva, fundador de Mahishmathi. Bijjaiadeva não foi coroado devido a sua natureza injusta, mas ele culpou apenas a deficiência de sua atrofia em um dos braços como o verdadeiro motivo, o que lhe causou um grande rancor. Maharaja Vikramadeva morreu quando sua esposa, a Rainha Devasena, estava grávida de seis meses. Davasena passou os próximos três meses chorando, e Sivagami, a cunhada do rei, tomou as rédeas do reino. Ela então destinou que as duas crianças deveriam ser criadas como irmãos, se preparando como princípes para que um dia pudessem provar quem teria a honra e sabedoria de liderar Mahishmathi. Os irmãos cresceram e se tornaram poderosos guerreiros, e numa provação final, deveriam liderar a defesa do reino contra um gigantesco ataque. Aquele que eliminasse o líder dos inimigos, provaria o seu valor, e seria condecorado com rei através da palavra final de Sivagami. Durante as negociações com o exército hostil, a rainha teve sua honra manchada pelo discurso sujo do chefe inimigo, Kalakeya e, exigiu na cólera do momento, que o queria morto, mas sofrendo lentamente. Beirando o fim da batalha, Baahubali capturou e subjugou o líder dos algozes, arrastando-o ferozmente respeitando o pedido de sua mãe. No entanto Bhallaladeva, num ato de desespero por provação, mata Kalakeya, e Baahubali sendo leal ao irmão, demonstra que aquilo não é um problema para ele.

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Terminada aquela guerra, Sivagami proclama: Bhallaladeva como Comandante das Forças Armadas de Mahishmathi, e Baahubali como o novo Rei. Os méritos para ser um rei, não é quantas pessoas se é capaz de matar, mas sim quantas é capaz de salvar, palavras de Sivagami em resposta aos protestos de inconformação de Bijjaiadeva quanto a sua decisão. Se você for capaz de matar muitas pessoas, você será considerado um grande guerreiro, mas se você salvar uma única pessoa, você será considerado um Deus. Essa é a palavra de Sivagami, e a palavra da Rainha é Lei. E Shiva, quem era ele? Shiva era Filho de Shivudu Baahubali, Aquele Fiel que fora traído por seu amigo e mentor, Kattappa.

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EXPLICAÇÃO DA FILOSOFIA (COM SPOILERS)
Deixo claro que esta é uma obra tão bonita e rica que merece ter aberta suas várias interpretações, e esta é humildemente a minha. Utilizando de pelo menos duas mitologias, que identifiquei, K. V. Vijayendra Prasad criou um épico que traz o conceito comum à várias culturas e seus personagens de cultos, onde Shiva faz parte de uma Trindade chamada Trimûrti. Segundo a doutrina hindu Ela seria formada por Brahma, o Deus da Criação, Vishnu, o Deus da Preservação, e Shiva, o Deus da Regeneração e Destruição, o que se comparado à Santíssima Trindade do catolicismo, Brahma seria o Pai, Vishnu o Filho, e Shiva, o Espírito Santo.

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“Shiva é Filho do Salvador, Amarendra Baahubali. O Bálsamo de Devasena que profetizara inabalavelmente pelo Seu retorno. O fruto do Sacrifício Final da Rainha Mãe Sivagami.” Como previsto por Sivagami, Shiva ascendeu e retornou por Mahishmathi, regenerando para um novo ciclo que mais tarde se contaminará e precisará ser destruído novamente. Em momentos diferentes do filme ele traz um bindi diferente na testa, a pequena pintura vermelha feita com vermilion (sulfato de mercúrio vermelho brilhante finamente pulverizado). Por vezes é o símbolo de uma lua crescente, que representa a evolução, as mudanças de paradigmas, o abandono da letargia para buscar mais um renovado conceito de um ciclo infinito. Por outras vezes o desenho é de uma naja, a mais poderosa das serpentes. Significa que Shiva dominou a morte e tornou-se imortal.

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Um personagem importantíssimo é Kattappa, escudeiro da família real, aquele que fizera a promessa a Maharaja Vikramadeva de cuidar de sua sucessão. Este é um dos personagens mais complexos e essenciais para o entendimento da filosofia por trás do ciclo de Regeneração e Destruição. Assim como Judas Iscariotes do cristianismo, fora escolhido para ser aquele que carregaria o fardo de levar a culpa pela morte do Filho do Homem, Vishnu, simbolizado por Maharaja Vikramadeva, pai de Shiva. Seu bindi na testa representa o de um escravo, corroborando com a ideia daquele portador do peso da Providência. Fechando com este, o conceito do catolicismo, a última e segunda linha inspiracional utilizada pelo genial K. V. Vijayendra Prasad.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Prabhas, Rana Daggubati, Anushka Shetty, Tamannaah, Ramya Krishna, Sathyaraj, Nassar, S. S. Rajamouli, Rohini, Meka Ramakrishna, Tanikella Bharani, Adivi Sesh, Prabhakar, Sudeep, Nora Fatehi e Scarlett Mellish Wilson compõem o elenco. Criação de K. V. Vijayendra Prasad, Baahubali: O Início, teve seu roteiro compartilhado com o também diretor e ator do longa S. S. Rajamouli. A superprodução indiana de 2015 é produzida por Shobu Yarlagadda e Prasad Devineni, utilizando os estúdios da Arka Media Works. M.M. Keeravaani é um consagrado compositor indiano, e é o responsável pela belíssima trilha sonora. Seu orçamento foi de 25 milhões de dólares (₹1.8 bilhões), e teve um faturamento de 91 milhões (₹6.5 bilhões). O épico indiano de S. S. Rajamouli, é a primeira parte de uma duologia.

CONCLUSÃO
Baahubali: O Início é uma viagem à um mundo de fantasia onde precisamos nos desatar dos nossos conceitos e aceitar as metáforas como elas são. Se nos ocuparmos julgando seus elementos conceituais nos baseando em nossa cultura ocidental, não iremos apreciar absolutamente nada nesta aventura. Não é um filme feito para te fazer pensar, é uma filme para te fazer sentir e se inspirar. É uma obra que transborda princípios morais sem te fazer entrar numa paranoia política infrutífera. Sua beleza está na estética visual e simbólica de contar a aventura de um homem na sua busca por justiça e libertação. Particularmente julgo este ser um filme obrigatório para qualquer cinéfilo que queira ser levado à sério. Baahubali: O Início funciona sozinho, mas na verdade é a primeira parte de uma duologia. Sua classificação etária é de 16 anos, mas pode tranquilamente ser assistido por uma criança por volta dos 12 na companhia de um responsável. Tenha um excelente filme!

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