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A série Breaking Bad (2008-2013), ao longo dos anos, acumulou timidamente (no início) uma legião de fãs, dentre os quais me incluo. Sendo assim, comentar qualquer derivado da obra de Vince Gilligan é um empreitada delicada.Mas El Camino (2019) não é a única história envolvendo o universo de Jess Pinkman e Walter White. A série Better Caul Saul (desde 2015 e com última temporada confirmada) também explora ainda mais os detalhes dos personagens secundários da história do professor de química que se torna produtor e traficante de metanfetamina (cristal).

Entretanto, ao final de Breaking Bad, fica o gosto amargo da morte de um anti-herói e a fuga desesperada de Jesse, barbudo, lacerado, com lágrima nos olhos depois de ter sido feito de escravo e morado em um buraco no chão. O que acontecera ao rapaz que se envolveu com produção de cristal, primeiro para saciar seu próprio vício, e que, depois, só queria viver, quem sabe, uma vida simples e em família? Nesse sentido El Camino é um fechamento para um dos personagens mais cativantes da série e que rendeu fama a Aaraon Paul.

Jesse precisa fugir de Albuquerque, pois uma grande caçada policial é empreendida atrás do rapaz após uma batida no laboratório de metanfetamina no qual era escravizado. Com a morte do Sr. White, as autoridades precisam por as mãos no último elo solto dessa organização criminosa. Pinkman tem um plano, mas será preciso muito dinheiro para executá-lo. Para isso terá que revirar seu passado e traumas para seguir seu próprio caminho.

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Título original: El Camino: A Breaking Bad Movie
Direção: Vince Gilligan
Roteiro: Vince Gilligan
Duração: 2h 2min
Lançamento: 11 de outubro de 2019.

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Elenco: Aaron Paul (Jesse Pinkman), Jesse Plemons (Todd), Jonathan Banks (Mike), Matt Jones (Badger), Charles Baker (Skinny Pete), Robert Foster (Ed).

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O FIM DE EL CAMINO
Vamos começar nossa análise justamente pelo título original:  El Camino: A Breaking Bad Movie. O termo El Camino refere-se à pick-up (caminhonete) da Chevrolet, automóvel clássico da década de 1970. É nele que ao final da série, tendo abandonado Walter White a própria sorte, Jesse acelera para a liberdade. Aqui o duplo sentido é claro: esta é a história do caminho da liberdade de Pinkman para sair de Albuquerque. E as memórias de Jesse relacionadas ao dono do carro, o sociopata Todd, permearão a narrativa do filme.

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O subtítulo, Breaking Bad Movie (um filme de Breaking Bad), pode ser um limitador. É um filme da série e, talvez por isso, tenha sido omitido na forma reduzida para o público brasileiro. Então você pode se perguntar: eu preciso ver a série antes? Sim e não. Por um lado o filme é o universo expandido, uma continuação do último episódio (2013), e, mesmo alguns atores tendo mudado muito como o Jesse Plemons (Todd) que não é mais um jovem e já um pouco gordinho, parece que o tempo parou. Conhecer a série fará com que sua imersão seja completa e entenda todas as referências.  Em contrapartida, o enredo de El Camino é independente e se sustenta, ao longo da trama, esclarecendo pontos da história para aqueles que não assistiram à série. Claro que a Netflix deu aquela mãozinha e deixou um resumo no capricho para quem não saca nada de Breaking Bad.

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Os eventos do filme tem início na fatídica noite em que Walter liberta Jesse da gangue de Todd. Fragilizado e coberto de cicatrizes, sujo e andrajoso, o jovem busca abrigo de seus colegas de vício e tráfico: Badger e Skinny. Nota-se que o psicológico de Jesse está destruído. O presente se mistura as lembranças do cárcere e das torturas.

É em um desse momentos que relembra de Todd, sociopata a citar constantemente seu tio, e que oscila sua conversa branda, com a frieza de seus atos. Toda hora que ele falava, eu tinha vontade de xingá-lo, confesso. Lembra-se de Mike, antigo parceiro de crime, e idealiza uma fuga para o Alasca. Mas como? Precisava de uma vida totalmente nova e para isso, dinheiro. É nesse momento que entra em cena o cara: Ed.

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Ed, vivido por Robert Forster que viera a falecer no mesmo dia da estreia desse longa-metragem, é o grande trunfo de Jesse. Facilitador da fuga de Walter White e do advogado Saul, o vendedor de aspirador de pó (profissão que o ator realmente exerceu) tem um rígido código de conduta e não aceita de cara o trabalho. Pinkman terá que enfrentar seus medos para conseguir o que precisa para fugir e começar de novo, quem sabe fazer faculdade, como lembra em um flashback de uma de suas conversas com o Sr. White.

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Dois pontos, há de se salientar, antes de finalizar esta análise. A fotografia do filme é intensamente quente, como esperamos de Albuquerque. Por vezes é possível sentir a aridez do clima pela tela. Assim como alguns ângulos de câmeras são incríveis como a de Jesse escondido no apartamento de Todd. Ainda em relação a Pinkman, a cena no qual o protagonista brinca com um besouro revela que Jesse ainda tem um alma gentil. Essa parte ecoa a própria série na qual também brincou com um inseto rastejando lentamente no chão e sorriu para ele antes de pousar. Esta é a dualidade da série e aqui nitidamente explícita: Pinkman que tinha tudo para ser mal e viciado e ganancioso, alcança sua redenção ao passo que Walter, íntegro, destruiu sua própria vida.

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UMA PEQUENA PARTICIPAÇÃO
A aventura da fuga de Jesse é permeada caras conhecidas da série original, entre elas está Mike (único personagem que aparece em todas as tramas do universo Breaking Bad) e Jane, grande amor de Pinkman. Mas como todo fã da série, ansiava por alguma participação de Bryan Cranston, revivendo Walter White. E ela acontece em um tocante flashback quando Jesse ainda cuidava de seu antigo professor com uma afeição de filho.

Na cena, em questão, Jesse e Walt ficam em um hotel e conversam em uma lanchonete. Ela é ambientada no episódio 4 Days Out, no qual ambos ficam presos no deserto e quase morrem. No hotel, Jesse está conversando com Jane ao telefone, pois ela ainda está viva durante o período deste episódio. Jesse também faz uma referência a “eletrólitos”, que faz parte do roteiro do episódio no qual os dois quase morrem devido à desidratação.

CONCLUSÃO
Não é dos filmes mais alucinantes de ação, pois nunca foi essa a pegada da série da qual El Camino derivou. Estamos falando de drama e reviravoltas de roteiro como Vince Gilligan, que já contribuiu com a série de Chris Carter, Arquivo-X, já se mostrou capaz de fazer. O longa-metragem de Jesse Pinkman dá um fim honroso para a história do ex-viciado e traficante de metanfetamina que foi reduzido a uma condição sub-humana, perdeu quem mais amava e foi traído por seu pai postiço, Walter White.

É tocante ver esse garoto fragilizado sendo ajudado por seus amigos próximos, personagens coadjuvantes como Badger e Skinny, mas que se veem imbuídos de um lirismo, de uma amizade leal que venceu as barreiras do dinheiro e da decência. Ver que muitas feridas de Jesse estão ali e permanecerão com ele. Que as maiores cicatrizes não são aquelas da pele, porém aquelas frutos da saudade do que foi e do que teria sido.

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