Sob a ótica de alguém que não fazia a menor ideia do que esperar do filme…

Comecei a me inteirar sobre o mundo da Marvel e da DC Comics em 2012, quando iniciei um namoro com um nerd assumido, aficionado por Histórias em Quadrinhos (HQ’s). Desde então, sempre fui a todas as estreias como acompanhante, sem ter grande conhecimento acerca das histórias e dos personagens que iriam se apresentar em sagas gigantescas (pelo menos para o meu gosto).

Confesso que em vários filmes eu cheguei até a dormir: “Vingadores: Guerra Infinita” é um exemplo. Mas ao longo desses sete anos, eu nunca – NUN-CA! – achei um filme da DC tão espetacular, intrigante e emocionante, como foi o Coringa (2019), estrelado pelo talentosíssimo ator Joaquin Phoenix.

Talvez eu não seja a pessoa ideal para escrever sobre esse filme se você espera ler uma resenha crítica embasada nas HQ’s. Porém, se assim como eu, você só conhece o Coringa por meio dos filmes do Batman, e está na dúvida se vale a pena ir ao cinema para conferir com os próprios olhos se esse filme é mesmo tudo isso que estão dizendo, então lhe apresentarei alguns motivos para que você dê uma chance para o Coringa te conquistar!

1. CORINGA (2019) É UM FILME EXTREMAMENTE REFLEXIVO

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Talvez possa soar meio “estranho” para alguns, mas esse filme despertou em mim um sentimento de empatia. Arthur Fleck é um homem que aparenta ter pelo menos uns 40 anos. Ele vive com a mãe, Penny Fleck, em um apartamento sombrio e bagunçado, tal qual a personalidade deles. Ela está debilitada, dependendo do auxílio do filho para tarefas básicas, como comer e tomar banho. Ele, por sua vez, é extremamente atencioso e delicado no trato com sua mãe. Um é a companhia do outro, e ambos encontram na TV uma espécie de refúgio e de inspiração.

Arthur, que ganha a vida como palhaço, sonha em ser um comediante de stand-up comedy. Seu grande ídolo é Murray Franklin, apresentador de TV aos moldes do Jô Soares, interpretado por Robert De Niro.

A fixação em se tornar comediante vem desde a infância, pois ele cresceu ouvindo sua mãe dizer que ele veio ao mundo para fazer os outros sorrirem. E, por ironia do destino, Arthur tem uma doença neurológica que o faz rir descontroladamente em situações que o deixam nervoso ou ansioso.

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Achei extremamente tocante a cena em que ele está viajando sozinho dentro de um ônibus e uma criança começa a encará-lo. Com uma inocência pueril, ele começa a brincar com o menino, entretendo-o e garantindo uma risada muito gostosa. Aquele, talvez, tenha sido o único sorriso verdadeiramente espontâneo e sincero que Arthur recebeu em sua vida. A única risada com sentido de alegria, e não de “zombação”.

Mas em meio àquela pequena alegria e satisfação, eis que o pobre homem solitário e renegado pela sociedade recebe um balde de água fria da mãe do menino, como se ele estivesse perturbando a criança ao invés de diverti-la. E então a risada descontrolada toma conta da situação… Mesmo apresentando um cartão que explica sobre sua doença, as pessoas não querem entender/aceitar que ele não se encaixa nos moldes de normalidade impostos pela sociedade.

Esse é apenas um dos exemplos apresentados ao longo do filme que me fizeram refletir sobremaneira como nós, como sociedade, lidamos com pessoas que apresentam alguma necessidade especial.

Será que eu e você compreendemos a singularidade de cada indivíduo, aceitando verdadeiramente suas limitações? Será que estamos preparados para lidar com as diferenças para além do discurso ativista e progressista que muitos apresentam, sobretudo nas redes sociais? O Governo realmente se importa com a saúde pública, favorecendo tratamento digno àqueles que necessitam de assistência contínua?

Não encontraremos no filme as respostas para essas perguntas, mas, definitivamente, somos capazes de buscar enxergar a trama apresentada sob um olhar mais humanizado. E aí Coringa acabará nos dando uma lição de vida sobre saúde mental, demonstrando que, na realidade, a nossa sociedade se encontra tão louca e doente como aqueles que são diagnosticados com problemas neurológicos.

2. A NECESSIDADE DE ACEITAÇÃO E DE BUSCA PELA NORMALIDADE É ENFATIZADA DURANTE TODA A TRAMA

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É possível perceber a cada cena a tentativa de Arthur em ser se encaixar no padrão de normalidade socialmente aceito. Ele, que já passou uma temporada no sanatório, segue se encontrando esporadicamente com uma assistente social, que o faz perguntas frequentes sobre seu estado. Parece que tais encontros não surtem os efeitos esperados, pois ele não consegue “parar de se sentir mal o tempo todo”, mas é graças a eles que os seus sete remédios diários são garantidos.

No trabalho, ele procura fazer o que é sua obrigação, mas todos o tratam como um palhaço louco, estranho, que não tem crédito em suas afirmações. E é assim, colecionando situações insustentáveis a sua condição mental, que Arthur vai se perturbando e se transformando cada vez mais em um ser frio, magro, insensível a dor alheia e sem a menor graça.

São pequenas situações, somadas dia a dia, que fazem com que esse homem depressivo, que tenta com seus próprios braços alcançar a felicidade, acabe encontrando outras formas de expressar suas insatisfações e frustrações.

Não seria isso o que acontece com tantas pessoas que, diariamente, expressam gritos de socorro velados, disfarçados em frases ou ações que passam despercebidos ou, pior, são banalizados?

Acredito que se você assistir a esse filme pensando não no conhecido e até mesmo caricato vilão de Gotham City, mas sim na transformação do homem comum, doente, excluído e incompreendido, que se torna a principal ameaça a ser combatida pelo Homem-Morcego, então você perceberá que corremos o risco de ter muitos Arthurs em nosso meio, que só precisam que seja acionado um gatilho mental para se transformar no sociopata Coringa…

3. O DIÁRIO DE ARTHUR É TRADUZIDO EM PORTUGUÊS

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Uma coisa que eu achei sensacional nesse filme foi a tradução do diário do Arthur em Português. Assisti ao filme dublado e esperava que nas cenas em que aparecem as páginas do seu diário (que também serve de anotação de ideias para seu futuro show de stand-up), as frases fossem aparecer em Inglês, traduzidas em forma de legenda, para o nosso idioma. Porém, o que vemos são as páginas escritas em Português.

O que isso tem de tão interessante? Ao meu ver, pareceu bem mais realista. E para um bom observador, aquelas páginas já indicavam traços de toda a confusão mental do personagem, cheia de rasuras, palavras escritas com erros gráficos, rabiscos e afins. Se mais alguém teve o interesse em tentar ler o que estava escrito, certamente identificou uma das frases mais impactantes do filme: “a pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”.

4. O FILME NÃO É REPLETO DE EFEITOS ESPECIAIS

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Para alguém que há sete anos está assistindo filmes de heróis e de vilões cheio de ação e de efeitos especiais, com muito barulho de tiro, p* e bomba, o filme Coringa foi um deleite! Nada de efeitos, nada de barulho, muito pelo contrário: que trilha sonora maravilhosa!

A interpretação de Joaquin Phoenix é brilhante, magnífica, conseguindo demonstrar durante suas crises de riso o quanto aquele gesto estava, na realidade, inundado de drama, de dor e de lágrimas. Uma observação mais atenta é capaz de captar nitidamente que apesar do sorriso na cara, o olhar demonstrava total tristeza, um pedido de socorro sempre eminente, mas nunca atendido.

Fico me perguntando como Phoenix conseguiu, com tanta maestria, associar sentimentos tão distintos ao mesmo tempo… Suas danças são um show à parte! Na mesma hora eu lembrei do Ney Matogrosso. Todas as danças são embaladas com músicas super pertinentes e agradáveis de se ouvir, contrastando com as cenas que de agradáveis não têm nada.

5. O CORPO FALA

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A expressão corporal do ator, especialmente durante as danças e as crises de riso, demonstra o quanto o corpo fala, o quanto o corpo grita, mas que para interpretá-lo, é necessário se despir de preconceitos em busca de toda a subjetividade que carregamos nesse conjunto de ossos e músculos que, para alguns, é uma máquina orgânica, mas que essencialmente, é a tradução do que somos no mundo.

Se tomássemos posse de que não temos um corpo, mas que somos um corpo, seria bem mais fácil detectar que as expressões dizem muito sobre quem somos e quem podemos nos tornar se não temos a dignidade que todo ser humano merece.

6. SOBRE A VIOLÊNCIA

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Eu quase não assisti ao Coringa nos cinemas por ter ouvido muita gente falar que o filme era extremamente violento. A classificação etária é de dezesseis anos e eu concordei plenamente que tenha sido determinada assim. Achei um absurdo encontrar crianças com cerca de dez anos na minha sessão. Fico me perguntando o que há na cabeça de pais que não respeitam a classificação indicativa de filmes, pois, definitivamente, este é um filme para adultos.

E ainda diria mais: este é um filme para adultos que querem assistir uma trama envolvente, e não caricata. Que esperam descobrir a origem e a transformação de um homem que se torna um vilão emerso da sombria e desigual Gotham City, e não apenas a história do Palhaço do Crime quem tem cabelo verde e um sorriso escancarado. Mas enfim, comentários à parte, voltemos ao ponto principal: a violência presente nessa preciosidade de filme.

Primeiramente, as cenas de violência em Coringa são fichinhas frente às de Logan (2017) ou Deadpool (2016). Existem cenas pesadas? Sim. Mas são infinitamente mais leves que as dos filmes supracitados. Diria até que só existe uma cena que realmente é bem sanguinolenta. As demais já são comuns em séries bem populares na Netflix.

Para quem já assistiu Narcos, Orange Is the New Black ou Vis a Vis, as cenas de Coringa não irão surpreender ao ponto de serem “intragáveis”. Penso que em Vis a Vis, por exemplo, o requinte de crueldade do psiquiatra (ou seria psicopata?) Sandoval é muito mais impactante.

Mas no meio disso tudo, o que mais me admirou é que justamente na cena mais violenta, em que quase foi possível respingar sangue na plateia, foi o momento em que todos riram. Que loucura!

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Depois da morte de sua mãe, Arthur volta para casa e inicia seu processo de maquiagem como palhaço, assumindo, definitivamente, sua versão assassina. Ele é convidado a ir ao seu tão querido programa de TV, tendo a oportunidade de conhecer seu grande ídolo Murray Franklin, e, por isso, resolve se caracterizar dessa forma.

Cabe dizer que participar desse programa era um grande sonho, mas não sob as circunstâncias apresentadas: Arthur só é convidado porque um trecho da sua apresentação de stand-up foi passado no programa, de forma banalizada, sem sua autorização. Devido ao aumento da audiência, resolvem chamá-lo para participar ao vivo, e com isso ele vê a chance de mostrar ao mundo sua verdadeira personalidade. É aí que ele percebe que, no fundo, sua vida, que sempre foi uma tragédia, na realidade estava sendo vista pelo mundo como uma grande piada.

Porém, antes de sair de casa para tal compromisso, ele recebe a visita de dois ex-colegas de trabalho, devido ao falecimento de sua mãe. Um deles é quem lhe deu a arma utilizada em seu primeiro crime, o outro, um anão que sempre lhe tratou muito bem. Para se vingar daquele que, ainda que indiretamente, favoreceu sua entrada no mundo do crime, Arthur pega uma tesoura e mata o homem com golpes letais em várias partes do corpo.

O anão presencia tudo, e quando ele abre a boca para questionar o porquê daquilo tudo, é quando a plateia começa a rir, pois a cena foi friamente calculada para ter esse tom sarcástico, cômico, ainda que numa situação extremamente trágica. Foi então que fiquei me perguntando como nós pudemos rir depois daquele crime horrível, como foi possível que a morte tenha sido tão banalizada.

Daí pra frente, vemos a transformação de uma pessoa com problemas mentais que, estando sem seus remédios e sofrendo uma enxurrada de agressões, decepções e revelações imprevisíveis, vai se tornando um homem frio, agressivo e calculista. Que sofre uma metamorfose profunda, compreendendo, enfim, sua personalidade, e nos revelando que, como diz o ditado, de médico e louco, todo mundo tem um pouco.

7.  SOBRE A LUTA DE CLASSES

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É interessante perceber como surge uma mobilização política crescente em Gotham City ao mesmo tempo em que a vida de Arthur parece decair cada vez mais. Seus crimes acabam sendo a motivação para uma revolução dos menos favorecidos, que já não aguentam mais viver em uma cidade em que os ricos têm espaço e os pobres não.

Chega a ser meio “assustador” pensar que em nossa sociedade isso não é muito diferente. Quantos são aqueles que se identificam com os que matam, que fazem justiça com as próprias mãos?

É triste constatar que, infelizmente, Arthur só foi visto pela sociedade quando ele se transformou num psicopata. De certa forma, ele só foi querido e admirado por muitos depois que seus atos extremos foram reconhecidos como algo motivador para uma resposta agressiva do povo, que viu nesse contexto a oportunidade perfeita para incendiar a cidade em busca de melhores condições de vida.

CONCLUSÃO

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Espero que com a análise desses sete pontos você tenha sentido curiosidade em tirar as suas próprias conclusões acerca desse personagem que conseguiu me cativar. A atuação do Joaquin Phoenix foi impecável, tal qual a direção de Todd Phillips. Eles certamente receberão algumas estatuetas por esse filme que, na minha opinião, pode ser considerado como o filme do ano. Sem dúvida, o melhor filme da DC. Vale a pena conferir!

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