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Desde a primeira aparição do Beatles na TV americana, em 9 de fevereiro de 1964, na época programa de Ed Sullivan, no qual entre as canções mostrava-se dados biográficos do então jovens prodígios, a banda inglesa expandiu e conquistou tanto o mercado estadunidense, como também o mundo. Naquela playlist já constavam sucessos inesquecíveis como All My Loving, Till There Was You, She Loves You, I Saw Her Standing There e a icônica I Want to Hold Your Hand.

Imaginar a história da música, quiçá do mundo, sem a presença da banda Liverpool seria algo impensável, mas não para o diretor Danny Boyle, vencedor do Oscar 2008 (Quem quer ser um milionário?). 

Está é a premissa do enredo do filme Yesterday (2019): depois de um apagão em escala mundial, a existência dos Beatles é deletada da história humana, exceto para algumas pessoas, entre elas: Jack Malik. Mesmo com todos os esforços de sua amiga e produtora Ellie Appleton, sua carreira ia de mal a pior. Não é visto com seriedade pelos amigos e nem pela família. Somente Ellie, que nunca esquecera da performance de Jack fazendo cover de Wonderwall do Oasis em um concurso da escola quando era criança, parece acreditar no talento do rapaz. Até que a vida de Jack muda após um acidente de bicicleta.

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Título original: Yesterday
Direção:
Danny Boyle
Roteiro:
Jack Barth, Richard Curtis
Duração:
1h 56min
Lançamento:
29 de agosto de 2019

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Elenco: Himesh Patel (Jack Malik), Lily James (Ellie Appleton), Sophia Di Martino (Carol), Joel Fry (Rocky) e Ed Sheeran (Ed Sheeran).

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BEATLES E MICHAEL JACKSON?
Qualquer fã da banda sabe que ter as músicas da banda de Liverpool no cinema ou em qualquer obra artística era, até certo tempo atrás, uma raridade. Parte desse problema se deve justamente ao fato de nada mais, nada menos, do que Michael Jackson era o dono dos direitos autorais das músicas dos Beatles.

Na década de 1980 muitos empresários com o ideal de fundar um grande conglomerado de entretenimento acabaram por criar uma organização: a Michael Jackson, Inc. Esta empresa acabou por adquirir a ATV, empresa que hospedava o catálogo musical dos Beatles. Entre as obras, a empresa detinha os direitos autorais da maioria dos maiores sucessos da banda, incluindo “Yesterday”, “Come Together”, “Hey Jude”, e muitas outras.

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Depois do próprio Paul McCartney e Yoko Ono abdicarem de comprar o catálogo simplesmente porque o rei do pop ansiava por ele, alguns meses mais tarde Michael Jackson comprou a ATV por um preço de 47,5 milhões dólares. Hoje, a Sony/ATV, que detém os selos de cantores como Taylor Swift e Eminem, vale cerca de US$ 2 bilhões. Para Joe Jackson, embora pudesse comprar facilmente o catálogo, o comportamento de McCartney era justificável:

“O comportamento de Paul foi muito, muito mais estruturado financeiramente. A única razão para Michael comprar o catálogo era porque estava à venda! Paul McCartney e Yoko poderiam ter comprado, mas não quiseram.”

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Já para Martin Bandier, o diretor-executivo Sony/ATV Music Publishing, havia também uma explicação para a falta de vontade de McCartney: “Eu nunca pensei que Paul McCartney iria comprá-lo, porque é muito difícil para um criador comprar o que é seu. Seria como Picasso passar um dia fazendo uma pintura, para comprá-la, vinte anos, depois por US $ 5 milhões. Não seria uma coisa que Paul faria.”

O fato é que por muito tempo, era quase impossível usar o acervo dos Beatles seja em outras obras artísticas, seja em peças publicitárias. Isso só passou a mudar a partir de 2008 quando houve a abertura para uso em publicidade. Mesmo não precisando do aval do integrantes ainda vivos da banda, Bandier acreditava que havia uma “obrigação moral” de analisar o uso dos catálogos com McCartney, Starr, Yoko Ono (viúva de Lennon) e a família de George Harrison (que morreu em 2001).

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BEATLES NO CINEMA
Um marco para o uso de canções da Beatles no cinema é sem dúvida o longa-metragem de Jessie Nelson, I am Sam (2001), que por aqui recebeu o título açucarado de Uma lição de amor. Neste filme que premiou com os Oscar de melhor ator Sean Penn, conta a história de Sam, uma homem com atraso intelectual (uma mente de uma criança de 7 anos), que com ajuda de outros deficientes cuida de sua filhinha Lucy Diamonds (Lucy in the sky with the diamonds). Há cenas que remetem à Abbey Road, citações feitas pelo protagonistas de frases de Lennon e McCartney e, claro, as diversas músicas dos Beatles interpretadas por covers. São ao todo 19 versões que contam com as vozes de Ben Harper, Wallflowers, Stereophonics e Sheryl Crown. Uma saída inteligente, pois na época  era algo extremamente raro ter documentários, filmes ou clipes desde que Michael Jackson adquirira os direitos autorais da banda na década de 1980.

Usar a obra dos Beatles como fio condutor de uma trama inteira foi a proposta de Across the Universe (2007) de Julie Taymor. O casal protagonista Jude e Lucy, nomes retirados das canções da banda inglesa, vivem toda sua história de amor, ambientada pela músicas dos Beetles, no período de contracultura, da psicodelia e protestos contra a Guerra do Vietnã da década de 1960. Época tão bem retratada no documentário 1967: O verão do amor (2017).

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UM TRILHA FANTÁSTICA, UMA HISTÓRIA PREVISÍVEL
Longe de ser uma obra-prima, Yesterday tem uma história simples e comum para uma comédia romântica. O longa parte de um acontecimento fantástico, um apagão em escala mundial que parece ter sido provocado por uma erupção solar (como se pesca de uma manchete de jornal). Isso causa uma reviravolta na vida do aspirante a cantor, Jack Malik. Um looser (perdedor) em todos os sentidos da palavra. Sempre auxiliado pela carismática e linda Ellie, professora de matemática e produtora amadora que vive uma friendzone e reprime seus sentimentos por Jack.

A ideia de um cantor que terá que escolher entre o amor e o sucesso musical está na raiz de filmes como Rock Star (2001), com Mark Wahlberg interpretando um vocalista de rock anos 80; ou Nasce uma Estrela (2018), com a Lady Gaga. Ou seja, é um tema batido. O que chama a atenção, claro é vasto uso do Beatles como pano de fundo da trama.

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A partir blackout mundial, Jack se vê como a memória da existência dos Beatles. Por mais que mais duas pessoas, no enredo, lembrem-se da existência da banda inglesa, somente Jack tem o talento para cantar e tocar as músicas. Nesta realidade, John Lennon não morreu em um atentado: vive uma vida pacata a beira do mar, alheio à música. Nesta realidade Oasis (banda influenciada pelos Beatles) não existe, assim como a Coca-Cola (só a Pepsi, em um merchã escandaloso) e Harry Potter.

Então, auxiliado por Ellie (no início) e pelo cantor Ed Sheeran (que interpreta ele mesmo), Jack se torna uma celebridade na Internet, abre turnês, vai a shows de entrevista, faz tudo que sua empresária chique Carol lhe ordena.

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No final, ele escolhe uma vida simples ao lado de sua admiradora de infância. O mundo não volta ao normal (juro que esperei isso). As músicas da banda são doadas gratuitamente e Jack abdica de lucrar com uma arte que nunca foi sua. Volta a ser professor e constitui família em um final simples que agradará ao noveleiro mais aficionado.

QUATRO CURIOSIDADES (entre tantos easter eggs)

  1. 064_10No filme, Jack foi atingido quando estava de bicicleta, quebrou os dentes da frente e feriu os lábios. Isso realmente aconteceu com Paul McCartney em 1966 que caiu do ciclomotor e lascou um dente da frente em Liverpool. 
  2. 064_11Legalmente, os cineastas precisavam apenas da permissão da Sony ATV para usar as músicas dos Beatles, sendo a Sony detentora dos direitos de publicação. Em princípio, eles também buscaram as bênçãos de Paul McCartney, Ringo Starr, Yoko Ono e Olivia Harrison para o filme. Assim os Beatles não tiveram contribuição criativa, exceto pela aprovação de seu repertório para uso no filme.
  3. 064_12A história original do filme foi escrita por Jack Barth. Nela tudo era muito mais sombrio, com o protagonista lutando como músico na nova linha do tempo e a premissa do universo alternativo explorada com mais profundidade. Quando Richard Curtis reescreveu, ele fez o tom muito mais alegre, colocou menos ênfase na premissa de uma nova linha do tempo sem os Beatles e mais foco no romance entre Jack e Ellie.
  4. 064_13Alguns dos personagens têm seus nomes inspirados nas músicas dos Beatles: Rocky, o roady temporário, é nomeado por causa de “Rocky Raccoon”; Ellie,  é nomeada em homenagem a  “Eleanor Rigby” (a única música que Jack tem dificuldade de lembrar); e a colega de quarto de Ellie, Lucy, claramente, “Lucy in the sky with the diamonds”.

CONCLUSÃO: TODAY, ASSISTA!
Yesterday não é a última bolacha (ou biscoito) do pacote no que se refere a uma comédia romântica ou mesmo de tributo musical. A história é leve, sem vilões, pois nem Jack Malik é um mal caráter. Ele é um sonhador e se deixará levar pelos rumos dos acontecimentos. Uma salva de palmas para Ellie (Lily James) que é aquela mocinha fofa e apaixonada e de sorriso cativante, a melhor em cena.

Se o leitor nerd deseja um filme leve e é fã dos Beatles, cantará do início ao fim as músicas do grupo, mesmo com a desafinada de Help durante o show de lançamento de Jack (embora o ator, Hamish Patel tenha feito aula de canto e violão). Para além das piadas bem colocadas e em momentos precisos, vai até esquecer que Ed Sheeran não é lá um ator, mas vale pelo desconcerto do rapaz em frente as telas na sua “amizade” com o protagonista. Veja o longa de Boyle como distração de um dia estressante. Afinal não deixe para Yesterday o que pode fazer Today. Essa foi muito ruim! Fui galera!

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