061_00

PLOT
Haviam se passado vinte e sete anos desde os eventos onde Pennywise trazia caos e morte às crianças de Berry. Quando Mike, o único a continuar morando na cidade, nota os mesmos padrões voltarem a se repetir. Se apegando na confiança da promessa feita entre os membros do Clube dos Otários, o agora homem formado, contacta amigo por amigo explicando que era o momento de voltarem à Berry. A profecia de que Pennywise retornaria foi cumprida e, assim que compreendem a gravidade da coisa, Bill, Stanley, Baverly, Richie, Ben e Eddie, percebem que precisarão lidar com traumas da infância que nunca foram resolvidos.

061_01

COMENTÁRIOS SEM SPOILERS
Diferentemente da primeira parte, It: A Coisa – Capítulo 2, tem bem mais conteúdo para contar, relembrar e explicar. Essa tamanha quantidade de informações complexas que compõem o universo criado por Stephen King, não apenas envolve fatos a serem alinhados num roteiro, mas sim esmiuçar gatilhos de sete perfis psicológicos, relacioná-los, e ter ao fim, tudo posto à mesa, para enfim criar uma conclusão. Como revés, temos um roteiro que causa confusão e, até cansaço no público que se acostumou com o script mais direto da primeira parte. Os 170 minutos do longa são percebidos justamente pelo ritmo lento dos arcos que apresentam flashbacks da infância, e também de alguns momentos do passado que não haviam entrado no episódio anterior.

Assim como no filme de 2017, a obra ainda consegue espaço de encaixar discussões contemporâneas. Se antes a violência do bullying era o principal material de abordagem, agora é a homofobia, uma amostra das doenças de uma sociedade ultrapassada e sem empatia. A coisa é tão grave, que a exposição do assunto trouxe cochichos e comentários ignorantes no cinema onde assisti, quando na cena de abertura (portanto não considero spoiler), um casal de jovens homens se beijam enquanto se divertem num parque. As piadinhas preconceituosas da audiência ignorante foram silenciadas, quando esse mesmo casal é brutalmente espancado por um grupo de personagens covardes, com quais duvido muito eles não terem se identificado. Certamente isso causou um misto de vergonha e desconforto. Quem disse que um filme de terror onde um palhaço assassino que desmembra criancinhas não tem algo a ensinar? Fenomenal, um tapa na cara com inteligência e estilo!

061_02

REFLEXÕES COM MUITOS SPOILERS
Essa conclusão é particular, mas o que entendo, é que o palhaço Pennywise, ainda quando um humano, era um artista frustrado e sem reconhecimento. Esse sentimento de não ser valorizado, somado à uma grave psicopatia, serviu de molde para a entidade cósmica que hibernava na Terra desde tempos remotos. Nos estudos de Mike não é revelado uma literalidade de atos nefastos como os ocorridos em Derry, talvez algo sim tenha acontecido com o uso da consciência de algum nativo Shipkwa, uma vez que elaboraram a armadilha do Ritual de Chüd com o fim de aprisionar ou eliminar a entidade. Necessariamente ‘A Coisa’ trabalha como um vírus, que potencializa medos criando ilusões concretas capaz de ferir fisicamente suas vítimas. Seria o toque? O ar? Talvez isso não importe e nem mesmo Stephen King tenha a explicação, no entanto todas as crianças em algum grau foram expostas à entidade. E ainda levanto uma teoria, admito, sem muita base, mas seriam o restante dos moradores da cidade, bem como os pais das sete crianças, também afetados pelo vírus? Ao meu ver isso explicaria a falta de urgência dos habitantes e os problemáticos e negligentes pais.

Sendo assim concluímos que todos os envolvidos não passam de vítimas de seus próprios medos, e isso de certa maneira inclui Pennywise, que após o contato com a entidade alienígena, desenvolveram cada um a sua própria forma de paranoia. Porém o simples fato de Bill, Baverly, Ben, Eddie, Stanley e Richie terem abandonado a cidade de Berry, fez com que eles criassem um bloqueio de uma série de episódios da infância, e o retorno vinte e sete anos depois causava bastante confusão.

  • 061_03BILL por um infortúnio da vida escolheu não ir brincar na chuva com o irmão por ‘um único dia’, fazendo com que essa escolha tivesse pesado em sua consciência na forma de culpa após sua morte. Apenas quando ele entende e aceita que aquela autoflagelação não fazia sentindo e, que seu pequeno irmão jamais o culparia, ele se liberta da dor se tornando uma pessoa mais capaz. Isso refletia na sua vida fora de Berry, uma vez que era um escritor incapaz de fazer boas conclusões para suas histórias. Vale lembrar que essa situação do homem escritor, é uma brincadeira com o próprio Stephen King, que é considerado por muitos um autor de desfechos ruins. O que na minha opinião é uma completa injustiça, visto sua vasta coleção de trabalhos.
  • 061_04BEVERLY talvez seja a personagem que carregava as cicatrizes mais pesadas. O trauma por ter sido molestada sexualmente por um pai doentio, que além dos crimes incestuosos e de pedofilia, ainda alimentava a culpa na própria filha pela morte de sua esposa. Mesmo com esse fardo do tamanho do mundo, ainda se mantinha durona. Porém conforme avançava na vida adulta, foi se cansando e se tornando uma mulher mais fragilizada. Sempre com péssimas escolhas para o relacionamento e levando uma vida sem muitas expectativas. O momento onde se liberta das amarras de dor, é quando percebe a verdade sobre uma crença que guardou desde a infância. Não era Bill a razão de seus sentimentos, mas sim Ben, aquele rapaz encantador que sempre admirou seus “cabelos de fogo, como brasas no inverno”. Beverly tem um diferencial entre os demais, ela possui o dom de prever através de sonhos e pesadelos, certos acontecimentos com aqueles que tem proximidade. Essa capacidade não é explicada e não tenho grandes teorias sobre a razão, só sei que o único fato claro é dela ser a única mulher do grupo.
  • 061_05MIKE foi o único do grupo que nunca saiu da cidade. O jovem se sentia culpado pela morte de seus pais num incêndio quando era pequeno, e isso sempre lhe atormentou. Seu sonho era conhecer novos horizontes, talvez a Flórida, mas ele se viu agarrado por algum motivo à Berry. Após terem enfrentado Pennywise quando crianças, Mike passou a pesquisar de forma compulsiva tudo sobre aquela criatura. Em seus estudos chegou a um grupo de nativos que guardava a história da chegada de uma entidade cósmica naquela região. Os Shipkwa tentaram impedir a ameaça extraterrestre através de um ritual, no entanto não obtiveram sucesso. A ferramenta para tal, era um artefato como uma caixa, na qual cada guerreiro disposto a enfrentar o ser precisava depositar como oferenda, um objeto que fazia parte de sua própria existência. Beverly tinha o bilhete de Ben (que acreditava ser de Bill), Ben tinha o autógrafo de Beverly, seu amor platônico, Eddie tinha sua bombinha de asma, Mike uma pedra suja de sangue da briga contra uns valentões, Bill conseguiu o barquinho S.S. George, feito para o irmão no dia de seu desaparecimento, Richie uma ficha de fliperama, que marcou um momento de dor pela traição de quem achava poder confiar, e Stanley uma das toucas engraçadas para prevenir aranhas na cabeça, quando estivessem sede subterrânea do Clube dos Otários. Mike é a chave principal para dar fim à Pennywise. Herdou de seu pai, Will, várias informações sobre o macabro palhaço, e por conta de não ter saído da cidade, nunca esqueceu de todos os detalhes. Para ele superar o trauma, estava diretamente relacionado em acabar com aquela entidade e honrar a vontade de seu pai.
  • 061_06BEN desde a criança se mostrou uma criança muito inteligente e introspectiva. Junto com Mike, foi um dos últimos garotos a se juntar ao Clube dos Otários após ter sido ferido por Henry Bowers com um “H” riscado com um canivete em sua barriga. Ben, embora bem maduro para sua idade, ainda tinha complexos por conta da sua aparência. Estar acima do peso sempre foi motivo de vergonha e insegurança, tanto que nunca soube se declarar a Beverly, a menina que amava. Certa vez escreveu um poema em um cartão postal, mas devido a um mal entendido, chegou as mãos de Beverly com o entendimento de que seria Bill o autor. Levou consigo a fraqueza até a vida adulta, e embora se esforçando ao ponto de se tornar um belo e imponente homem, musculoso e nada gordinho, ainda assim era a mesma  criança insegura por dentro. Superou seu trauma no momento em que Beverly descobriu que era por ele sua verdadeira paixão.
  • 061_07EDDIE teve sua vida destruída pela própria mãe. Uma mulher obesa, manipuladora e controladora, que a o invés de levantar do sofá e buscar viver a vida, ainda fez de tudo para levar o filho para o mesmo buraco. Colocando-o como uma criança excessivamente frágil, Eddie tinha medo de tudo, nojo de tudo, e com isso se tornou uma pessoa hipocondríaca incapaz de ter uma vida normal. Quando chegou na vida adulta, inconscientemente buscou uma mulher nos mesmos moldes da mãe, tanto fisicamente  como em temperamento. Superar seus problemas seria complicado, visto que teria que desconstruir uma série de pequenas crenças absurdas que sua mãe enfiou em sua cabeça. Mas simbolicamente Eddie tinha aquela famigerada bombinha de asma, e o simples fato de se libertar daquilo, era mais que o suficiente para também se livrar de suas amarras.
  • 061_08RICHIE sempre foi um comediante. Estava sempre fazendo piadas com e entre os amigos, e nunca levava nada a sério. O menino guardava um segredo, e era por trás do humor ininterrupto, que ocultava seu sofrimento pessoal. Richie era homossexual e nunca teve apoio para compreender direito o que seria isso. Era uma realidade íntima que não se permitia de forma alguma revelar, porém sempre teve a atração pelo amigo Eddie. Por dentro era uma pessoa amargurada e triste, muito diferente da fachada que se esforçava para manter. Nos instantes finais no conflito contra Pennywise, Eddie é atacado e morre. Então Richie desaba enquanto revela seu segredo e o amor pelo amigo. Sua superação era perceber que aquelas pessoas valiosas para ele não se importavam se ele era ou não gay, mas fazia diferença sim eles verem sua felicidade.
  • 061_09STANLEY como dito pelos membros do Clube dos Otários, era o melhor deles todos. O jovem era judeu num ambiente bem conturbado quando se tratava em respeitar escolhas religiosas. Era alvo da intolerância de Henry Bowers, e até mesmo piadinhas do amigo Richie. Metódico e maduro, sempre se manteve cético quanto às macabras ilusões criadas por Pennywise. E é nesse conflito de realidade e crenças, que Stanley alcança a vida adulta e constitui sua família. Vinte e sete anos depois do pacto de sangue, recebe a ligação de Mike e, na sua guerra interna não consegue lidar com saber que precisaria voltar a Derry e lidar novamente com seus caóticos conflitos. Stanley então se tranca no banheiro de casa, entra na banheira e comete suicídio cortando os próprios pulsos. Ao final do filme todos os membros do Clube dos Otários recebe uma carta, na qual Stanley revela ter se sacrificado para que as previsões de Beverly não se cumprissem e assim conseguissem mudar o destino ao enfrentar Pennywise.

061_10

O CONFRONTO FINAL
O planos de Mike para derrotar Pennywise acaba não dando certo, mas revela a real forma da ‘Coisa’. A entidade extraterrestre na realidade era um conjunto de três esferas fortemente iluminadas. Algumas pontas ainda estavam soltas, nem todos haviam superados seus medos e encontrado a chave correta para derrotar o inimigo. Mas é quando Mike percebe o ponto fraco de Pennywise. Assim como Richie, o palhaço também se escondia atrás de uma máscara, e por trás da fachada só sobrava medo. Como dito antes, Pennywise não passava apenas de mais uma vítima daquela aberração vinda do espaço, portanto, assim como todos, tinha fraquezas por dentro. Então o jogo a ser feito era o mesmo qual ele vinha fazendo com suas vítimas, a imposição do medo! Então Mike, Bill, Beverly, Ben e Richie, se unem com comentários depreciativos à Pennywise. Que aos poucos vai enfraquecendo e literalmente diminuindo. Chegando ao ponto dele ser tão pequeno e vulnerável, que Mike enfia a mão em seu peito retirando assim seu coração. Então o Clube dos Otários põe um fim ao ciclo de terror em Berry quando com as próprias mãos destroem aquele resquício da ‘Coisa’.

061_11

AMADURECIMENTO E DIAS MELHORES
Após os sacrifícios de Stanley e Eddie, aquelas cicatrizes das feridas pelo pacto de sangue, desaparece das mãos dos sobreviventes. Fazendo entender que definitivamente tudo aquilo tinha acabado. Ben e Beverly finalmente encontram o paradeiro para suas vidas, e decidem rumar juntos à partir dali. Eddie agora é confiante de si e nada mais tem para esconder. Bill volta ao trabalho, conseguindo agora melhorar os finais de suas histórias, quando recebe uma ligação de Mike, agora em viagem e distante de Berry.

A soma dos dois episódios de It: A Coisa, não é um simples filme de terror psicológico, mas uma lição de esperança para todas as pessoas que acham que seus problemas são grandes demais. Aquele grupo em particular, os moleques do Clube dos Otários, só precisavam amadurecer. E a prova definitiva disso é a ligação de Mike para Bill, meses após terem derrotado Pennywise, quando um amigo diz amar o outro. As piadinhas imaturas ficaram no passado, agora aquelas pessoas se tornaram adultas e dispostas a cultivar apenas o que de melhor podem oferecer e ter dos outros.

061_12

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Jaeden Lieberher, James McAvoy, Jeremy Ray Taylor, Jay Ryan, Sophia Lillis, Jessica Chastain, Finn Wolfhard, Bill Hader, Wyatt Oleff, Andy Bean, Chosen Jacobs, Isaiah Mustafa, Jack Dylan Grazer, James Ransone, Nicholas Hamilton, Teach Grant, Bill Skarsgård, Jess Weixler, Will Beinbrink, Xavier Dolan, Taylor Frey, Jackson Robert Scott, Javier Botet e Joan Gregson, compões o elenco de atores principais. A direção fica por conta de Andy Muschietti, enquanto a produção é dividida entre Barbara Muschietti, Dan Lin, Roy Lee, Seth Grahame-Smith e David Katzenberg. Com um orçamento de 80 milhões de dólares, o filme com apenas dois dias de exibição nos cinemas já ultrapassou de forma considerável o seu custo. Tendo o valor da receita final atualizarei as informações!

CONCLUSÃO
It: A Coisa – Capítulo 2 é a conclusão do filme de 2017, portanto se você ainda não assistiu ao outro, esqueça esse e vá assistir a primeira parte. Avisado o óbvio, esse é um fechamento magistral para o romance de Stephen King que merecia muito uma produção à altura de seu romance de 1986. Uma produção fantástica que não faz sentido separar os dois episódios, então quando falo deste segundo episódio, na verdade faço referências às duas obras como uma só. A direção brilhante de Andy Muschietti conseguiu dar vida a um roteiro intrincado, tirando o melhor de um número enorme de atores.  It: A Coisa passeia pela comédia, drama, romance, suspense e terror, e em tudo que se compromete, faz com excelência! Pode ter certeza, essa se tornará uma das obras lendárias do cinema.

Barra Divisória

assinatura_dan

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s