Torre de Marfim

MINHA EXPERIÊNCIA 20 ANOS DEPOIS
Imagino ter passado uns vinte anos desde a última vez que assisti A História Sem Fim, e batendo uma enorme saudade decidi revisitar aquele que era um dos meus filmes preferidos da infância. Comecei acreditando que iria desmanchar parte da minha memória, tendo agora uma visão e interpretação adulta demais para aquilo tudo. Simplesmente fiquei receoso de não funcionar mais. E não só para mim, estava quase certo de que veria algo datado ao ponto de mais nenhuma criança se interessar. Eu estava errado, e duplamente muito errado.

Bastian Livro

Assisti em blu-ray, já pensando que todos os efeitos e seus defeitos explodiriam na minha cara. A película oitentista se mantinha firme e elegante, mostrando uma personalidade natural que os filmes de hoje propositalmente procuram replicar. O nível de contraste agradável e aquele ruído de filme antigo, isso por si só já me fazia respirar a nostalgia. Me transportava ao começo dos anos noventa, quando chegava da locadora com o VHS numa bolsa, e prestes a colocar no videocassete. Esse é um dos filmes que me recordo bem da primeira experiência. Tinha ido com o meu pai quando eu era bem pequeno, e foi ele quem escolheu. Assisti com meu irmão, ele quase três anos menor, e não imagino que ele tenha absorvido bem naquela primeira vez, já que nem para mim, aquela mensagem era tão simples assim. Talvez tenha inconscientemente registrado? Não sei, eu devia ter cerca de uns seis ou sete anos.

Criaturas A História Sem Fim

O filme é direto e fácil de compreender, enquanto adulto, no fim se nubla um pouco, mas esse é seu maior mérito. Quando criança você é tragado para um mergulho de cabeça no encanto daquele mundo mágico. Não existem questionamentos, as coisas simplesmente são como são. Temos o anão com seu caracol de corrida, o gigante Come-Pedra com seu velotrol, a fantásticas e encantada Torre de Marfim, onde reside a Imperatriz Menina, e claro, o inesquecível dragão da sorte, Falkor!

Atreyu e Atrax

Mas sendo um adulto, como você interpreta tudo isso? Bem, hoje eu me predispus a frustração. Sentei para assistir convicto de que arranharia um pouco a minha alma e descobriria que nem tudo é tão belo quanto nossas memórias. Na introdução eu já me emocionei. Aquele voo entre nuvens, combinado a uma das mais belas e inspiradas trilha sonoras de todos os tempos, apertou um gatilho no meu subconsciente. Eu literalmente me senti uma criança de novo. Expus uma pureza abandonada pelos tropeços da vida, e aceitei cada proposta daquela lindíssimo filme. Sua mensagem sobre coragem, sobre o como nunca desistir. De dar ouvido aos outros, mas não tanto ao ponto de deixarem te pregar os pés no chão. A mensagem que em nossos momentos sombrios soam tão utópicas, mas não deixam de ser tudo o que mais precisamos. E a principal lição, bem mais proveitosa aos adultos do que às crianças: – “pessoas sem esperança são fáceis de controlar, e quem tem o controle tem o poder”.

Pai de Bastian

PLOT COM LEVES SPOILERS
Mágica, ou completa imaginação de uma criança de criatividade fértil? Logo no começo do filme temos Bastian conversando com seu pai na cozinha enquanto tomam café da manhã. Temos a revelação de que a mãe do menino recentemente morreu e, agora, o jovem tem se tornado mais aéreo que seu comum, ao ponto de rabiscar até seus livros da escola com unicórnios e outros seres fantásticos. Seu pai conversa um pouco com ele e diz que é triste sua mãe ter ido embora, mas que ambos precisavam continuar a viver a vida com suas obrigações. Que Bastian deveria se atentar mais e manter os pés no chão. O educado garoto ouve o pai respeitosamente e em seguida toma rumo à escola.

Homem da Livraria

No caminho encontra três encrenqueiros, que sempre tomavam seu dinheiro e lhe faziam maldades. Bastian não escapa da primeira agressão e vai parar dentro de uma caçamba de lixo. O rapaz sai e volta a se deparar com o trio de delinquentes, mas dessa vez consegue fugir. Entra numa loja de livros antigos de um esquisito senhor com tique nos olhos. Ele está lendo um livro e, como um bom leitor, Bastian fica bastante entusiasmado e curioso por saber do que se tratava. O homem fala com ar de provocação, dizendo que os livros eram apenas histórias, mas que aquele não era um livro comum. Não era um algo que ele seria capaz de lidar, pois poderia afetá-lo verdadeiramente. O telefone da loja toca, então ele deixa o livro sobre a mesa e vai atender. Bastian não perde tempo, surrupia o livro e deixa um bilhete, em que dizia para ele não se preocupar, porque em breve o devolveria. Percebendo que o livro tinha sido levado, notamos um semblante de satisfação e confiança positiva daquele senhor. Bastian corre para escola e descobre que sua turma está fazendo uma prova de matemática. Então com já tudo arquitetado em sua cabeça, corre para o sótão da escola onde se esconde para poder ler o livro em paz.

Terra de Fantasia

Bastian adentra um mundo deslumbrante, repleto de magia e criaturas fantásticas. Um universo tão belo e vivo, que se torna impossível descrever, porém um grande mal assolava a existência de Fantasia. Momento em que um jovem e perspicaz guerreiro é escolhido para salvar o mundo da destruição.

Atrax Morrendo

DESVENDANDO FANTASIA
O livro A História Sem Fim é uma mensagem de esperança, uma verdadeira ode à recriação. O conforto para aqueles momentos quais achamos que nada mais tem solução. A morte, uma natureza da vida, isso não podemos mudar. Mas podemos dar nosso máximo para que a passagem se torne menos saturada, quando evitamos a sedução oxidante da melancolia. Atrax, o imponente cavalo do guerreiro, se entregou ao sofrimento, e mesmo que Atreyu o incentivasse a não desistir, ele pereceu nos traiçoeiros Pântanos da Tristeza. Quando desistimos não apenas partimos, mas também deixamos aqueles com quais nos importamos amargurados. Atreyu, nosso herói de jornada, chorou, mas não deixaria a morte de seu amigo suceder sem significado. Fora graças a ele que conseguira chegar até ali. Mas precisava continuar. Já havia atravessado as Montanhas de Prata, o Deserto das Esperanças Perdidas, e alcançado as Torres de Cristal. Precisava manter a esperança inabalada e salvar Fantasia. Sim, a palavra “esperança”, que tanto se repete, é a base elementar de toda essa história.

Morla

Atreyu precisava procurar uma cura para a Imperatriz Menina, ela era a única capaz de impedir o Nada. Então continuou sua busca até Morla, que morava na Montanha Casco, em algum lugar dos traiçoeiros Pântanos da Tristeza. Ele encontra o sábio. Um criatura tão antiga quanto as próprias terras de Fantasia. Por sua vez ele mostra o caminho a Atreyu, mas havia um problema, o Oráculo do Sul, onde deveria se destinar, ficava longe demais. Distante 16000 quilômetros dali, não havia como chegar. Parece que o jovem herói não estava com muita sorte.

Atreyu Afogando

Gmork, o arauto do Nada, avançava ferozmente em seu encalço, enquanto Atreyu não havia perdido a esperança, mas estava exausto. Os pântanos estavam consumindo sua vitalidade, é o que acontece quando ficamos próximos demais da tristeza. Até ele estava sucumbindo e sendo absorvido pelo sofrimento. Mas o destino lhe reservava mais, um belíssimo e imponente dragão da sorte surge, salvando-o apenas por ter aceitado ajuda e estendido a mão. Sempre temos alguém para nos tirar do buraco e, aquele menino não era mais especial ou melhor do que ninguém, apenas escolhia manter a fé. Isso sim o tornava especial, o transformava em um ser transcendental. Ele buscava Esperança, o único meio sabido de salvar a todos.

Falkor

Então o jovem é levado próximo ao lugar onde precisaria chegar, e lá é ajudado por simpático casal, Engywook e Urgl, que lhe ajudam a recobrar suas forças. Atreyu então segue seu caminho, e precisava de convicção. Enfrentava seres que não perdoavam a mínima dúvida, e com a fibra de um Hércules, consegue superá-los. Então chega aos pés dos Oráculos do Sul, que revelam que apenas um humano de além das fronteiras de Fantasia seria capaz de ajudar. E que tal ser deveria dar um novo nome à Imperatriz Menina. Bastian então fica confuso, com a sensação daquele livro estar cobrando algo e se dirigindo diretamente a ele. Mas isso não era possível, aquele era só mais um livro comum, mas ainda intrigado o menino continua sua leitura.

Gmork

Atreyu e Falkor alcançam o Mar das Possibilidades, onde o Nada já estava chegando, e trazia consigo uma forte tempestade. Em meio àquela terrível tormenta, o jovem guerreiro cai do dorso de seu amigo, e acaba perdendo o medalhão de Auryn. Tão logo ele acorda caído no litoral do Mar das Possibilidades. O Nada estava bem perto e já começava a engolir os arredores de Atreyu, porém o nobre menino encontra uma ruína. Lá, registradas nas paredes, ele encontra toda história que vivenciou, revelando tudo aquilo ser uma verdadeira e antiga profecia. Ser o escolhido, atravessar os Pântanos da Tristeza, seu encontro com Morla, e todos os outros episódios de sua jornada. Então ele se depara com Gmork, o terrível e enorme lobo, finalmente mostra sua real natureza. Ele não era apenas um vilão, mas também conhecia a verdade por trás de tudo. Era um sábio conhecedor das coisas, e ele revela que Fantasia nada mais era que os sonhos da humanidade, um mundo de refúgio e esperança. O lugar onde as pessoas depositavam seus pensamentos lúdicos, portanto, não haviam fronteiras a ser transpassadas. Ele não encontraria um humano a quem pedir ajuda mais. O Nada estava devorando tudo, a humanidade estava deixando de acreditar. Não encontrando mais sentido em sonhos, se entregando a amarguram e, com isso, o Nada se tornava cada vez mais e mais forte. Se alimentando de enormes vazios. E era exatamente vindo de Gmork que vinha a maior das verdades: “pessoas sem esperança são fáceis de controlar. E quem tem o controle tem o poder“. Gmork se revela o enviado para matar e impedir O Escolhido, A Única Ameaça ao Nada.

Imperatriz Menina

Atreyu consegue derrotar Gmork, mas não impede os avanços do Nada. Toda Fantasia fora destruída, Falkor conseguiu salvar Atreyu, mas apenas poucos destroços restaram e, agora os dois vagavam juntos pelo vazio do espaço. Atreyu faz um pedido ao Auryn: – “Se a Torre de Marfim ainda existe, leve-nos lá.” – Como mágica ela surge a frente. Ele desejou. E estava montando um dragão da sorte. Atreyu encontra Imperatriz Menina, e à ela, ele confidencia não ter encontrado o menino. Tinha falhado em salvar Fantasia. Então ele é interrompido.

“Você o encontrou sim! Ele sofreu com você. Ele passou por tudo que você passou, e agora ele veio com você. Ele está muito perto, ouvindo cada palavra que dizemos.”

Bastian Chorando

Bastian então aflito percebe que parte daquela dor vinha de suas próprias aflições, do medo de seguir em frente após a morte de sua mãe, mas sendo uma criança inteligente, ele entendeu o que precisava ser feito. Não devia destruir algo tão belo e se entregar à melancolia. Então ele atende aos pedidos da imperatriz lhe dando um nome: – “Moon Daughter!” – Aquele que também era o nome de sua mãe.

Como após toda tempestade, inevitavelmente vem a calmaria, num eterno ciclo que se fecha. Fantasia volta a ser bela e, A História Sem Fim espera um novo início. Tudo volta como era antes, até mesmo Atreyu tem de volta seu amigo Atrax.

Bastian e Falkor

Agora surge um dilema, tudo aconteceu verdadeiramente ou apenas era uma ilusão criada pela íntima criatividade de Bastian? Se formos analisar alguns detalhes talvez nos convençamos de aquilo ter sido sim real. O olhar auspicioso do senhor da livraria, em satisfação pelo garoto ter levado o livro, me remete a acreditar que ele sabia que realmente aquele não era um exemplar comum. Meu entendimento é de toda aquela realidade criada se tornou tão verdadeira para Bastian, que ela atravessou as fronteiras de Fantasia, e invadiu o mundo real. Mas também tenho uma segunda hipótese, Bastian acordou às 7:30 da manhã, e passou o dia inteiro consumindo aquele livro. Então não é incoerente pressupor que ele possa ter dormido ao fim, uma vez que o rapaz já bocejava bastante. Então aquele sobrevoo na garupa de Falkor pode ter sido apenas um sonho? Bem, deixo para você tirar suas conclusões finais. Eu particularmente prefiro acreditar na Fantasia, e que sim, o fantástico se chocou com a realidade. Meio bobo, certo?

Elenco A História Sem Fim

ELENCO E FICHA TÉCNICA
O elenco principal conta com Noah Hathaway, Barret Oliver, Tami Stronach, Patricia Hayes, Sydney Bromley, Gerald McRaney e Moses Gunn. A História Sem Fim é um filme de 1984 dirigido pelo alemão Wolfgang Petersen, baseado no romance de mesmo nome escrito por Michael Ende. O longa de fantasia épica germano-americano, foi a produção mais cara feita fora dos Estados Unidos e da antiga União Soviética, e rendeu mais duas sequências. O filme recebeu vários prêmios, incluindo o Saturn Award de 1985 na categoria de “Melhor Performance de Jovem Ator” para Noah Hathaway,  venceu o Bavarian Film Award de 1985 na categoria de melhor produção alemã, venceu o Film Award in Gold e o Young Artist Award.

Falkor Voando

CONCLUSÃO
Pensei que encontraria um filme envelhecido, mas definitivamente isso não chegou nem perto de ocorrer. A História Sem Fim ainda é maravilhoso e atual, tendo muito a oferecer para as crianças em fase de amadurecimento criativo e moral. A vida é muito curta e as vezes exigimos tanto de nossos filhos que podemos podá-los de realidades lúdicas que só nessa fase eles são capazes de projetar para seus futuros. E o que esse filme traz é exatamente isso: abastece nossa força de vontade para superarmos aqueles momentos que podem ser os mais dolorosos em nossas vidas. Tenho esse filme na memória como parte de mim e gostaria de compartilhar com os mais jovens a pureza do que ele traz. Não riam dos efeitos especiais que talvez pareçam até bobos, em sua época eles eram considerados bem bonitos, e pelo menos para mim, ainda são belíssimos. De qualquer forma, considerem principalmente a mensagem. Cada palavra escolhida pelo roteiro tem seu peso e valor, esse é o seu maior mérito. Bom filme a você, passageiro de primeira viagem.

Barra Divisória

assinatura_dan

2 pensamentos

  1. Bom relembrar de um filme que marcou minha infância. Também lembro de alugar o filme junto com meu pai. Bons tempos que não voltam mais… Pretendo rever o filme.
    Boa frase de reflexão “Quando desistimos não apenas partimos, mas também deixamos aqueles com quais nos importamos infelizes”. Desistir jamais!

    Curtido por 2 pessoas

    1. São raros os filmes que combinam tantas simbologias positivistas com um trabalho tão bonito de arte. Reveja sim, é uma experiência incrível quando temos uma visão mais madura das coisas.

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