034_00

A VIDA COMO ELA É…
Idealizada por Russell T. Davies, a série Years and Years (Anos após anos, em uma tradução livre), é uma série de apenas seis episódios da HBO e que segue os moldes de uma futuro distópico (estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação) à semelhança de Black Mirror (Netflix). O programa acompanha a vida da família Lyons, que reside em Manchester (Inglaterra), a partir do ano de 2019 ao longo de 15 anos. Durante esse tempo, a história segue os membros desta família que enfrenta os avanços políticos e tecnológicos de seu país e do mundo, ao mesmo tempo que lidam com o cotidiano, o amor e a criação dos filhos em realidades tão diferentes.

034_01

A série começa com debate na TV assistido pela família Lyons. O foco é uma mulher de fala ousada, evidenciando que não há mais posicionamento político de esquerda ou direita. Fala que tem medo dos rumos atuais. Fala que quer que a situação entre Israel e a Palestina se “foda”. Isso mesmo. Sem papas na língua. A audiência delira. A declaração vai para o trending topics de assuntos do Twitter. Parte da família se diverte ou se escandaliza. Falam-se por meio de uma espécie de telefone que faz videoconferência por um simples comando de voz. Estão integrados e online permanentemente. Vivienne Rook (Emma Thompson), o nome da debatedora e empreendedora, usa sua retórica sedutora: devemos nos preocupar com o povo inglês e seus problemas comuns. Aparentemente sua busca pelo poder político é mais perigoso que inicialmente se mostra.

034_02

FAMÍLIA PARA LÁ DE DIVERSIFICADA…
Os Lyons parecem sintetizar diversos segmentos da sociedade: os irmãos órfãos de mãe e afastados do pai, tem na vovó nonagenária Muryel (Anne Reid), que mora em uma residência isolada, a fonte de sabedoria e que não se furta a compartilhar sua opinião nem sempre agradável.

034_03

O branco Stephen Lyons, o pacifista da família, é vivido por Rory Kinnear (conhecido por sua atuação constrangedora em Black Mirror, aquela do porco) é casado com Celeste (T’Nia Miller), negra com um padrão estético único. Ele, analista financeiro; ela, contadora. Suas filhas são igualmente peculiares: Ruby (Jade Alleyne), desbocada e vegana, é quase latina em seus traços; e Bethany (Lydia West), que sonha ser transumana, não possuir mais corpo físico e se tornar inteiramente digital. Ela quer ser eterna.

034_04

Já Daniel (Russell Tovey), irmão mais novo de Stephen, é gay, casado e a serviço do governo na área de construção pública ligada aos refugiados que assolam o país. Enquanto que Rosie (Ruth Madeley), irmã caçula, é cadeirante devido a um mal congênito e mãe solteira de um menininho branco e outro de origem chinesa.

034_05

Finalizando a família, Edith (Jessica Hynes), a irmã mais velha, é ativista política e luta contra os desmandos dos poderosos em suas andanças a bordo de um navio pelo mundo afora.

034_06

A MARCHA PARA O FUTURO
Em certo momento, ao visitar a irmã no hospital após dar à luz, Daniel relembra:

“Tudo ia bem até uns anos atrás, antes de 2008. Lembram? Achávamos política um assunto chato. […] Agora me preocupo com tudo. Nem sei em que pensar primeiro. Nem é o governo, são os bancos. Eles me apavoram. E não só eles. As empresas, as marcas, as corporações que nos tratam como algoritmos enquanto envenenam o ar, a temperatura, a chuva. Nem vou fale do El [Niño]. E agora temos os Estados Unidos. Nunca achei que fosse ter medo deles, mas temos fake news, fatos falsos, nem sei mais o que é verdade. Em que tipo de mundo vivemos? Se está ruim agora, como vai ser para você?”, referindo-se ao recém-nascido em seus braços.

034_07

Essa é a premissa da série: pessoas que seguiam sua vida ordinária, alheios aos acontecimentos políticos, mas que se veem mergulhados no caos social da atualidade, sofrem seus reflexos e seus conflitos a cada ano que passa entre os avanços tecnológicos e os retrocessos sociais.

034_08

Enquanto, através dos anos, governos nada flexíveis se mantém no poder, como o de Trump, e outros líderes morrem, como a eterna Rainha Elisabeth; Viv Rook vai se mostrando uma saída política ousada para a Inglaterra. Inserida em um contexto de governos autoritários: ela quer ser primeira-ministra. Representando um partido novo, que, apesar de uma derrota inicial, vai ganhando espaço no cenário político. Baseia suas ações em sua representatividade na mídia e nas redes sociais com suas brincadeiras bonachonas e retórica agressiva contra tudo e todos (já vimos esse filme…).

034_09

A série parte de premissas e projeções da nossa atualidade para traçar um futuro distópico, nada idealizado, ocasionado pelos problemas que foram deixados de lado por cada um de nós e voltarão para nos assombrar. E se Trump e Putin se recusassem a sair do poder? Como será o emprego no futuro que cada vez mais se torna home office? E as profissões que inevitavelmente irão sumir? E a alimentação? O meio ambiente?

034_10

Assuntos sensíveis são tocados a todo momento como o fato de Daniel, mesmo casado, se apaixonar por refugiado ucraniano, Viktor Goraya (Maxim Baldry), que em seu país natal quase foi morto por sua orientação sexual. Esse romance e a questão dos regimes conservadores e autoritários, a questão de fronteiras, os limites da tecnologia na vida de todos, a guerra comercial entre EUA e China, a tensão de um possível conflito em escala mundial… tudo isso se passa vorazmente no decorrer de anos e anos (Years and Years).

034_11

A VIDA COMO ELA SERÁ…
No meio desses acontecimentos, tentando sobreviver a eles, a família Lyons enfrenta ameaça nuclear, falência de bancos, desemprego, escassez de dinheiro, morte. Suas vidas passam diante de nossos olhos. A tecnologia avança, a humanidade regride em seu raciocínio empático, científico (aqui o terraplanismo é discutido!) e o extremo conservadorismo. Líderes carismáticos de extrema esquerda ou direita chegam ao poder. O populismo é auxiliado pelas mídias sociais e a mídia convencional é taxada como inimiga de governantes. Tudo nos soa intensamente próximo de nosso cotidiano e a série, meus amigos, é inglesa! Assim como assistimos ao seriado passivamente, os Lyons parecem, inicialmente, somente acompanhar, não protagonizam história. A família fará, em suas limitações, algo para mudar a marcha dos acontecimentos no seu país? Em certo momento a vovó Muryel, resume tudo e os convida a sair da inércia. Em 2034, em um almoço de família ela profere o seguinte discurso:

“Absolutamente tudo que deu errado é culpa de vocês. […] Podemos ficar aqui o dia todo culpando os outros. Culpamos a economia, culpamos a Europa. A oposição. O clima. E culpamos os grandes acontecimentos da História. Como tudo está fora de controle, como somos desprotegidos, pequenos e frágeis. Mas ainda é culpa nossa. Vocês sabem por quê. É a camiseta de uma libra. A camiseta que custa uma libra. Não conseguimos resistir. Nenhum de nós. Vemos a camiseta de uma libra e achamos uma pechincha, adoramos e compramos. Não porque é melhor, mas é uma boa camiseta para o inverno, para usar por baixo. Serve. O dono da loja ganha cinco míseros centavos pela camiseta. E um camponês, em um campo qualquer, ganha 0,01 centavos. E achamos que está bom. Todos nós. Damos nosso dinheiro e participamos desse sistema a vida toda.”

A quase centenária velhinha alerta para o conformismo, para falta de vontade de fazer protestos ou a diferença no mundo. De como não temos mais empatia pelos mais pobres e não entendemos que culpa do mundo como está é totalmente nossa. Nós somos os responsáveis.

034_13

A SÉRIE TEM FUTURO?
Year and Years é uma série agradável e instigante de assistir. Será fácil maratonar, afinal é curta com apenas seis horas de duração. Todavia as questões que ela traz à tona, são extremamente desconcertantes e familiares (nos dois sentidos da palavra). A semelhança com nossa realidade é impactante e nos convida a um despertar. Ela fecha um arco completo e nenhuma temporada a mais fora confirmada ainda pelos produtores, mas confesso que seria desnecessário. Ela fecha filosoficamente raciocinando na maior questão humana: os limites da existência. No final, caro leitor, a pergunta não será o que esperamos do futuro, mas o que o futuro espera de nós.

Barra Divisória

assinatura_marco

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s