Enter the Anime

Você sabe o que é anime? Mergulhe nesse universo de entrevistas com as mentes mais notáveis do gênero e descubra as respostas.” Bem, essa é a forma que o novo documentário de 58 minuto da Netflix se descreve e propõe fazer. Me parecia algo muito pretensioso de ser feito num espaço tão limitado de tempo, então decidi conferir e descobrir qual era seu real conteúdo e motivação.

Alex Burunova

Universo Anime (Enter the Anime), é um programa apresentado pela escritora e diretora Alex Burunova, e toma como ponto de partida os Estados Unidos. Mais precisamente Los Angeles, onde entrevista Adi Shankar, produtor da série Castlevania original da Netflix. Só por esse começo eu já fiquei meio com o pé atrás. Vamos começar pelo começo para eu fazer me entenderem. Primeiramente, e óbvio, quem conhece o conceito de anime se questiona verdadeiramente sobre o que ele é. Claro que existem discussões sempre em aberto sobre qualquer coisa, mas temos de ser honestos com nossa própria opinião. A minha é que animes definitivamente não são produzidos fora do Japão. E não digo isso por um simples preciosismo, mas porque realmente não existem, pelo menos ainda, produtos com a essência original japonesa. Não tem aquele tempero abstrato necessário pra se fazer categorizar verdadeiramente como um anime. Me desculpe mas Avatar: A Lenda de Aang, The Boondocks, e muito menos Ben 10 são animes. São excelentes produtos para seus públicos alvos, mas não são animes. E Castlevania também entra nesse mesmo balaio.

Expressões de Animes

Até os próprios japoneses pensam diferente de mim, consideram que qualquer tipo de animação, sejam japonesas e até de fora do país como animes. Seguindo essa lógica, para eles até Toy Story é um anime. Não parece fazer muito sentido posto desta forma, não é mesmo? Mas não daria pra eu simplesmente aceitar a proposta e resmungar menos?! Até daria, mas seria um desfavor conceitual. Anime não é como o conceito de rock, que engloba subgêneros como pop-rock, heavy metal ou country rock, por si só ele já é um subgênero dos desenhos animados. E onde ele se desvia de um desenho como qualquer um outro? Toma outro rumo quando entendemos sua estrutura. Na grande maioria das vezes animes são frutos de mangás que fizeram muito sucesso, embora existam poucos que fogem à essa regra, como Code Geass, Koutetsujou no Kabaneri e Cowboy Bebop por exemplo, são as combinações de estilos de expressões faciais exageradas e seus traços distintos que compõe suas principais características. Basicamente quem consome anime, sabe bater o olho e dizer que aquele produto é originalmente nipônico.

Tipos de Animes

Dentro dos animes também encontramos outras subdivisões de gênero, mas que indicam mais a faixa etária do grupo do que qualquer coisa. Existem os shoujo para jovem e feminino, shounen são as produções de luta e ação para crianças e adolescentes, seinen que tratam de assuntos mais pesados e sérios para o público adulto, kodomo são para crianças pequenas, e o josei, que são obras destinadas à mulheres adultas tratando de assuntos cotidianos mais próximos do real.

Bakuman

Em Universo Anime vemos uma série de entrevistas com vários produtores e diretores, e convenientemente trazendo apenas aqueles com produtos catalogados na biblioteca atual da Netflix. Resumindo de forma bastante fria e honesta, esse documentário não passa de uma autopropaganda. São sequências de entrevistas na maioria vazias que revelam pouquíssimas curiosidades até mesmo das obras que retrata, e nem de longe responde a questão que se faz à todo minuto da quase uma hora de duração que tem. “Você sabe o que é anime?” Se depender deste documentário vai morrer sem saber. Mas se você quer verdadeiramente saber o significado dessa palavra que parece até simples, mas que engloba um universo cultural gigantesco, recomendo o anime Bakuman. Não só sobre a produção e a essência do que são os animes, mas vai compreender tudo sobre os processos de criação e inspirações dos mangakás, desenhistas de mangás. Recomendo muitíssimo!

Adi Shankar

Fiquei chateado logo no começo com esse documentário por conta da frase de um cara, Adi Shankar, o produtor de Castlevania que solta a pérola “Como “Castlevania passou de um videogame meio morto à um programa de sucesso da Netflix?” Como assim cara?! Eu particularmente não sou um fã da franquia Castlevania, histórias de vampiros não é muito minha praia, mas é inegável o jogo nunca ter perdido sua relevância. Não é o jogo que precisa de um desenho, é o desenho que precisa do jogo para ter a mínima moral que hoje tem. Simplesmente achei o tom muito presunçoso visto que o trabalho que ele entregou nem é tão espetacular assim. Perdeu uma baita oportunidade de não ter se queimado desta forma entre os fãs da série.

Universo Anime

Durante o documentário são citadas as produções Castlevania, Baki: O Campeão, Kengan Ashura, Rilakkuma and Kaoru, Aggretsuko, 7SEEDS, Ultraman, Levius e B: The Beginning. Também plantam a sementinha do lançamento de Ghost in the Shell: SAC_2045 para o ano que vem, e entrevistam a cantora Yoko Takahashi, de Neon Genesis Evangelion.

Ultraman

Outra coisa que é trabalhada se aproveitando da boa vontade dos japoneses e de sua abertura, até ingênua à novidades, é de querer fazer parecer que os animes com altas doses de CG são a tendência inevitável para o futuro. Conhecendo a maneira que boa parte dos artistas nipônicos lidam com seus conceitos de criação, principalmente sendo uma entrevista para a Netflix com perguntas convenientes da Netflix para promover produtos Netflix, vai ser óbvio que eles venderão essa ideia de tendência do momento com a maior naturalidade. Se analisarmos as coisas vamos perceber que a Netflix vem acelerando e muito a elaboração de um catálogo exclusivo para competir com outros serviços similares. Em breve veremos Disney com seu serviço próprio de streaming retirar da biblioteca da Netflix uma série de produtos. Crackle, Crunchyroll, HBO Go, Amazon Prime Video, entre outras brigando por direitos de exclusividade e tendo seus próprios produtos. Os artistas japoneses não são tão conservadores, se você jogar uma batata podre, explodir na parede, e dizer que é arte, eles vão ficar maravilhados e te parabenizar pelo seu excelente trabalho. O respeito da sociedade é muito grande pela opinião alheia. Então pra eles não há problemas em fazer alegações sugeridas pela Netflix afirmando que CG é o futuro para os animes. Pra Netflix é interessante isso por conta da agilidade. É muito mais fácil e rápido produzir animes em CG do que os feitos tradicionalmente à mão quadro à quadro. E é isso o que eles realmente querem, quantidade. E parece não estar se importando nem um pouco com a qualidade. No fim, a política acaba participando muito mais do que deveria das produções.

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CONCLUSÃO
Documentário raso e que não diz nada com nada, se mostrando apenas um compilado do “Animes em Alta” do catálogo Netflix. Narrado por quem não conhece a cultura do anime, que nitidamente finge se esforçar pra conhecer, e se importando apenas em entregar uma encomenda pra Netflix que puxe sardinha pra seus produtos. Mas está aí pra quem quiser ver. Uma colagem de entrevistas que poderia fazer perguntas interessantíssimas mas que interroga apenas sobre o que os autores gostariam de fazer com seu tempo livre. Longe das produções.

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