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QUE WOLVERINE É ESSE?

Agora é fácil para as novas gerações gostarem de Wolverine: ele é um anti-herói cinematográfico. Não sou daqueles que acha que o cinema acabou por enterrar de vez os heróis ao usarem a licença poética para criar blockbusters milionários e que muitas vezes fogem à adaptação literal das Histórias em Quadrinhos (HQ). Creio que toda arte tem sua forma de ser e ver o objeto artístico. E assim, recebi com o entusiasmo a primeira aparição nas telonas do Wolverine de Hugh Jackman no filme X-Men (2000).

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Não estou aqui para analisar o filme, mas duas coisas me chamaram a atenção (e de qualquer bom fã do canadense pavio curto): 1. Hugh Jackman é um grandalhão de 1,88m, nada a ver com o baixinho que estava acostumado; 2. e cadê a ação sanguinária, ágil e sem meias-palavras do herói? Claro que o herói sofreria ao longo dos anos uma evolução vertiginosa nas telonas até ser o Logan de minhas leituras na adolescência, até ser velho e morto no seu derradeiro (até que se prove o contrário) filme: Logan (2017). Ainda é preciso levar em conta que os efeitos especiais ainda não eram sofisticados para deixar esse herói ainda mais “foderoso”.

013_02Mas o processo de humanização da fera interior de Wolverine, tensão que perpassa cada ato desse herói nos quadrinhos, ao contrário do que aconteceu nos cinemas, foi um processo demorado e que ainda é latente no Logan até em suas histórias atuais. Ele sempre lutará contra seu lado animalesco, como todos nós lutamos contra nossos instintos mais primitivos. Mas enquanto Wolverine, como fera brutal, nasce como inimigo do Hulk no gibi Incredible Hulk 180 (1974); Logan, seu alterego atormentado e desmemoriado, tem sua gênese humana ligada à minissérie Wolverine (1982). É justamente sobre última obra que falaremos.

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013_13A capacidade de catarse, a identificação com o personagem, quando se é adolescente é bem clara: todo jovem é, em seu íntimo, uma pessoa solitária e, principalmente, os nerds; como também o adolescente gostaria de responder com fúria a tudo aquilo que não concorda em sua família ou na sociedade. Mas Wolverine não é jovem. Ele já nasce velho no quadrinhos, se comprado aos demais X-Men da formação original (Ciclope, Jean Grey, Fera e Homem de Gelo) ou mesmo a formação dos Uncanny X-Men da edição Giant-Size 1 (1975), edição em que o canadense estreia na escola para “jovens mutantes” de Charles Xavier. Quando ingressa na turma do Professor X, divide as missões com Tempestade, Colossus, Noturno, Apache e Ciclope. No entanto ainda é o vovô da turma, desajustado, sem sentimento de equipe e de um passado envolto em mistério. Mas sua primeira minissérie mudaria o rumo das abordagens do herói nanico.

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DO CARCAJU AO “NINJA”

A ideia para a criação de Wolverine viera justamente de um animal baixinho e abusado. O editor Roy Thomas, responsável pela primeira aparição do canadense enfrentando o Hulk, revela a origem do nome do herói: “O personagem veio de minhas pesquisas sobre os carcajus (wolverines)… Eles são animais pequenos e selvagens, de garras afiadas, que não se incomodam de enfrentar animais bem maiores. Achei que isso daria um bom personagem”.

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Quando a dupla Chris Claremont e Frank Miller tem nas mãos um projeto de aventura solo do Wolvie, ele já era um herói peculiar há oito anos, já era um X-Men e conhecera, em uma das missões da equipe no Japão, Mariko Yoshida, por quem desenvolveu uma afeição instantânea. O romance começou com o medo da japonesa devido a aparência selvagem de Logan, mas aos poucos essa barreira era vencida e, entre idas e vindas de Mariko aos EUA, o amor entre os dois só cresceria.

013_06“É uma chance de mergulhar no background dele, na herança japonesa, nos conflitos entre a fera, o guerreiro e o homem, de descobrir o que o define, o que é verdadeiro para ele. Foi apresentando essa visão a Frank e vendo se era algo com o qual ele podia se relacionar que a usamos como ponto de partida para a história”, afirmou Chris Claremont sobre sua perspectiva de história.

A ideia da dupla sempre fora ter uma abordagem inovadora daquela apresentada normalmente nos número regulares de X-Men. Em colaboração com o artista John Byrne, Chris e Miller resolveram explorar, na minissérie Wolverine (1982), a psique conflituosa do carcaju da Marvel. “Nós apresentamos esta percepção de Logan. Para John, ele era um assassino com dedo no gatilho, contudo, após a morte de Jean (Grey, a Fênix, mostrada em 1980 na clássica X-Men 167), Wolverine pareceu abraçar Mariko com bastante naturalidade. O que o atraiu à ela? O que o atraiu à ele? O que fez com que Charlie (o líder dos X-men, Professor X) sentisse que aquele sujeito podia se misturar com a galera-X?”, revela Chris Claremont.

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EM BUSCA DA HONRA (Spoilers!)

“Sou o melhor no que faço, mas o que eu faço melhor não é nada agradável.”

Essa é a fala badass com a qual se inicia a minissérie em quatro edições: Wolverine (1982). Falta bastante humildade, mas tem muita verdade nessa citação. Ela acaba por sintetizar quem é Logan. É um cara que dá conta do recado, mesmo que isso lhe tire toda chance de felicidade.

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Depois de uma temporada no Canadá caçando um urso assassino, fera versus fera, ao retornar a Nova York se deparar com todas cartas enviadas à Mariko devolvidas pelos correio. Após ter seus telefonemas não atendidos, decide ir ao Japão para investigar. Descobre que com o retorno do desaparecido pai da moça, muita coisa mudou na vida de sua amada. O pai, Shigen Yoshida, tinha uma dívida de honra e a deu em casamento a um crápula que a espancava. E como se não bastasse, Shigen possui uma sede de poder para dominar tanto o submundo quanto o alto escalão do imperador japonês.

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Após invadir a mansão, dopado por um veneno desconhecido que lhe privava de seus sentidos mais aguçados, acaba por ser derrotado e humilhado pelo pai de Mariko e ainda revelando seu lado animal e desonroso aos olhos da amada. Deixado na sarjeta, é salvo pela misteriosa, independente e sensual Yukio. A afinidade entre os dois é imediata: ambos são independentes, indomáveis e tem uma fúria mortal. Desenvolvem, então, uma relação: possessiva por ela; superficial para ele que ainda ama Mariko.

013_12Para salvar sua nova companheira, Logan decide livrá-la de uma suposta ameaça. Na verdade Yukio trabalhava para Shigen e incitou Wolverine a eliminar um rival nos negócios do pai de Mariko em pleno teatro. Mais uma vez, Mariko presencia o lado selvagem e assassino de Logan e o abismo entre os dois se intensifica.

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Com a morte de Asano Kimura, policial e amigo, pelas mãos de Yukio, Wolverine resolve restabelecer sua honra. Descobre que o veneno misterioso, que dera vantagem a Shigen na primeira luta entre os dois, partira das lâminas de Yukio. Assim o carcaju começa a sabotar os negócios mafiosos de Yoshida, até o momento final no qual, com a ajuda inesperada de Yukio, salva Mariko e enfrenta Shigen em uma luta justa e honrada. No desfecho, sua amada descobre as trapaças do pai, Yukio desaparece e Wolvie envia um convite de casamento aos amigos mutantes.

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HAPPY END (Conclusões)

Tudo bem que o final é folhetinesco e os escritores românticos do século XIX adorariam ou mesmo os autores de novelas das oito. Mas não é só o final que nos lembra a prosa romântica: a cada edição da minissérie, os autores nos atualizam dos poderes e astúcias do herói fazendo com que, mesmo que não tenha a história completa à disposição, não deixe de aproveitar a trama. Na conclusão das três primeiras edições, fica sempre um gosto de “quero mais”.

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A minissérie explora o lado mais humano de Logan, mostrando sentimentos tenros e de carinho e seu grande paradoxo: uma fera capaz de amar e matar sem limites. Também revela que o caminho para a honra é tortuoso, muitas vezes atormentado, mas que a superação é sempre a melhor recompensa. O caminho nem sempre será agradável, mas é preciso ser o melhor naquilo que se faz. E Wolverine é o melhor.

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