Sebo

Entrar num sebo era uma experiência sem igual, principalmente quando se tinha uma pequena fortuna no bolso. Entenda como quiser o que seria essa grande quantia, mas te garanto, tendo uns poucos trocados, na década de 90, e dentro de um sebo, era como fazer compras numa loja de 1,99 após ganhar na loto. Você podia comprar pelo menos um item caro da loja, ou vários do mais barato, com todos, sem exceção, trazendo o cheirinho grátis de coisa velha pra impregnar sua estante pelo resto da eternidade. Façamos uma narração para dispor melhor a sublimidade da coisa.

Você tem na faixa dos quinze anos, é um homenzinho que já pode sair na rua sozinho, e se sente imponente com seus 20 Reais ganhados da avó no bolso. Entra no sebo, vira pro vendedor dizendo que ele pode fechar a loja só pra você, o dia da balbúrdia chegou, e claro, o vendedor olha pra sua cara, com um misto de pena e desprezo, enquanto indiferente continua lixando a unha ouvindo seu CD do Wanderley Alves dos Reis, vulgo Wando.

A Espada Selvagem

Você está dentro daquela loja onde as paredes são feitas de pura celulose pré mofada, onde até o teto serviu de estante para acumular livros, revistas e poeira, muita poeira. Olha pra lá, olha pra ali, disfarça não ter visto umas Ele&Ela, e fica desconcertado com o tio do bigode te olhando de forma esquisita. Aquele ambiente é pequeno e estreito demais pra que qualquer movimento não seja notado, nem mesmo músculos, nervos e bombear de vasos sanguíneos dos olhos passam despercebidos. Percebe que precisará de sorte pra encontrar algo que verdadeiramente valha sua grana, afinal, tinha muita coisa ali, e você não sabe por onde começar. Você decide tirar nos dados. Sua pontuação de sorte não é grande coisa, visto que distribuiu a maior parte em inteligência, e força. Então você rola o dado e tira um vinte! Nossa! Você encontrou uma pilha de revistas da banda Manowar! Olha com mais atenção e percebe que não, na verdade era o quadrinho do Conan, precisamente a série A Espada Selvagem de Conan. Sendo uma pessoa com uma sagaz ficha de personagem, não percebe, e nem leva à mal o excelente título. Então pega a revista e folheia, na intenção de descobrir do que ela se tratava. Até então você nunca tinha notado sua existência. As páginas eram todas em preto e branco, sendo apenas a capa colorida. O tio vira pra você e diz “cinquenta centavos”.

Conan

Você olha pro tio, vira pra revista, retorna pro tio, e diz, mas hein? Como assim custava míseros cinquenta centavos? A natureza primitiva humana do não poder ver uma vantagem surge, e você já contabiliza em poucos nanossegundos. 40! Cara, onde que com 20 Reais você consegue comprar tantos quadrinhos?!

Não teve jeito, fui escolhendo sem muito critério as que mais me atraíram pela capa, quando o tio disse “à cada quatro que você comprar, pode pegar mais uma”. Buguei. Olhei meio de lado procurando o cérebro pra me ajudar a fazer as contas. Bem, se xis elevado à hipotenusa de pi é igual ao cateto de Bhaskara, então o cosseno da tangente só poderia dar 50! Ainda mais acelerado eu continuei a escavação atrás daquela papelada, e se antes eu escolhia com calma tirando até a poeira, agora eu não queria nem saber, eu já ia tacando tudo num saco com aquela poeira vulcânica e tudo. Antes que ele se arrependesse. Faço o checkout da loja e vou eu pra casa, à pé, tinha torrado até o dinheiro do ônibus.

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Na estante da sala tinha o meu cantinho, que não era nada mais que uma porta onde eu guardava as supostas tralhas que minha mãe não queria ver espalhadas pela casa. Lá tinham alguns VHS gravados em EP, um Playstation tijolão com uns controles, e uns poucos gibis do Homem-Aranha e da série Superaventuras Marvel, que ganhei de alguém mas não me recordo quem. Já cheguei na sala com uma pequena bacia, um pedaço de pano molhado, e liguei o ventilador de teto. A ideia era tirar aquele excesso de poeira, colocar pra secar no vento, e ir organizando. Conforme terminava a limpeza de uma eu pegava outra. Aquelas artes incríveis das capas, e seu interior num simples preto e branco, conseguiam uma brutal expressividade e personalidade, isso me deixava hipnotizado. A imersividade daquilo era fantástica, exatamente o tipo de universo fictício que me atraia. Uma jornada épica, onde um solitário guerreiro andarilho enfrentava inimigos brutais, e isso num mundo sem tanta firula fantasiosa. Talvez fosse pelo quadrinho não ter cor mesmo, só sei que não sou muito fã de grandes alegorias fantásticas mescladas ao medievalismo excessivamente purpurinado. Facilitando o entendimento do que quero dizer, não curto tanto assim O Senhor dos Anéis. Gosto sim, mas não me considero um fã da franquia.

Basil

Conhecia os dois filmes, Conan, O Bárbaro, e Conan, O Destruidor, ambos com Arnold Schwarzenegger. Quer dizer, acho que qualquer um que tivesse uma TV conhecia. Repetia tanto quanto Curtindo a Vida Adoidado nos canais abertos. O que mais me impressionava nos filmes eram as trilhas sonoras incríveis de Basil Poledouris, compositor greco-americano que conseguia belíssimos resultados misturando orquestra com coros sistinos. O cara é famoso não só por Conan, mas também trabalhou nas trilhas de sucessos como RoboCop, Os Miseráveis, e no hoje controverso, A Lagoa Azul. Essas músicas lindíssimas ficavam na memória e completavam a leitura dos quadrinhos de um jeito inexplicável. Poledouris descansou após enfrentar um câncer em 2006, mas deixou de presente uma extensa obra que vaga em ondas de rádio pelo infinito universo. Confiram essas duas faixas e me digam se estou sendo exagerado nas palavras.

Cimmeria

Robert E. Howard é a mente por trás de Ciméria, uma região fictícia, terra natal de Conan. E todo esse fantástico universo surgiu em 1932, quando Howard estava em Mission, Estado do Texas, escrevendo o poema Cimmeria, enquanto rememorava sobre as áreas montanhosas acima de Fredricksburg, vista em aos nevoeiros das chuvas de inverno. Ciméria é descrita no poema como terra de trevas e de noites profundas, um local melancólico com florestas negras, silêncio sombrio, e um céu turvo e de aspecto plúmbeo. Embora o mundo hiboriano seja criação de Robert E. Howard, o nome original e a descrição de Ciméria são de A Odisséia, de Homero, Livro 11, linhas 12-18.

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Nem só de Conan o quadrinho se faz, em suas aventuras ele conhece e é ajudado por alguns companheiros. Tudo bem que algumas dessas personagens sejam totais falsianes, mas com uma de principal destaque o destemido bárbaro sempre pode contar, a imponente e belíssima ruiva, Red Sonja. Juntos eles tocam o zaralho e riscam o mapa da Era Hiboriana. Se a franquia Conan é taxada como machista por muita gente, é Sonja quem aparece pra mostrar que as mulheres não são meros objetos à serem subjugadas por trogloditas, ela senta o sarrafo em quem pisar no calo dela, e nem mesmo Conan se livra de ter os bagos pisoteados por conta de suas piadinhas vez ou outra. A personagem hircaniana é criação conjunta de Roy Thomas e Barry Windsor-Smith, responsáveis pelo quadrinho através da Marvel Comics. Além de Sonja, também contracena no quadrinho a dançarina Jenna, que tem um final bem trágico, o espadachim de Turan, Mikhal Oglu, o feiticeiro Zukala, a pirata Bêlit, Thoth-Amon, Yezdigerd, Valeria, cara, é uma penca de gente. Não sei nem porque tentei listar, enfim.

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Mas o principal atrativo dos quadrinhos de Conan é obviamente a brutalidade gráfica, ingrediente principal pra atrair o público infantojuvenil. Embora seja um quadrinho destinado ao público adulto, você sabe né? O mais interessante é que toda a sanguinolência expressada nas páginas em preto e branco não sentem sede por cores pra enfatizar qualquer coisa. O dinamismo dos traços de Barry Windsor-Smith eram incríveis e conseguiam se mostrar caótico de um jeito muito à frente dos outros quadrinista de sua época, ele não precisava de Bangs! ou Pows!, seus traços falavam por si só. Confesso que me adaptei tanto aos quadrinhos da série A Espada Selvagem de Conan que pra mim o estranho são os quadrinhos colorizados. Conan pra mim até hoje é o que existe de mais legal no mundos quadrinhos, não tem X-Men, Homem-Aranha, ou mesmo Batman, Conan é meu camarada, e por Crom, espero um dia nascer novas séries tão boas da Era Hiboriana como foram as lançadas na década de 80.

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