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Anos 90, que época boa. Claro, se você assim como eu tem por volta dos 30 e sua única obrigação era chegar da escola, jogar a mochila pro alto e correr pro videogame. Sim, essa é a realidade de uma criança que não via graça nenhuma na diversão que pudesse causar ardidos ralados, decapitação de tampões dos dedos, fraturas cranianas, e outros prejuízos físicos. Isso me levou a desde muito cedo demonstrar pros meus pais que eu era um cidadão consciente das coisas, contribuía me entretendo com coisas seguras para que não houvesse risco de um acidente onerar as finanças deles. Serviços médicos nunca foram baratos. Os videogames se tornaram o meu porto seguro, através deles eu conseguia atravessar selvas traiçoeiras, disputar corridas em castelos cheios de lava, e até dar rasantes com caças em meio à complexos nazistas, tudo isso em total segurança.

TV de tubo

E de que maneira jovens anciões jogavam videogame no começo da década de 90? Era só acessar a biblioteca de jogos, escolher um bendito jogo, baixar rapidinho e começar a jogar? Não. Primeiro de tudo precisávamos superar a burocracia. Mas que burocracia?! Bem, a tal burocracia se chamava mãe. Ou pai. Mas também poderiam ser avós, tios, ou seja lá quem tivesse te criado e fosse responsável por você. Ok, e porquê burocracia? Por qual razão jogar era um grande problema? Bem, existia uma ideia cabalística que assolava o inconsciente coletivo dos mais velhos com os aparelhos de TV naquela época. Por parte com razão, afinal, as coisas eram bem mais caras e difíceis de se ter do que hoje em dia. A economia não era lá essas coisas, muito diferente de hoje, claro, logo instalar um videogame era como colocar uma bomba relógio na TV. Bem, em fundo é verdade que as televisões mais antigas sofriam com problemas de marcar a tela com as imagens estáticas por tempo demais. Sabe aquela barrinha de vida? Sua mãe corria o risco de assistir a novela das nove com os corações de energia do Link no topo da tela.

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Superada a burocracia na arte do convencimento, após rolar no chão e fazer drama, aí sim, era a hora da verdade. Colocar o console no chão, conectar a tomada, plugar o joystick, e ligar a caixinha comutadora. Sim, ligar a caixinha comutadora. E o que diabos seria isso? Não é só plugar o HDMI?! Não! A caixinha comutadora está mais pra um barbante que você amarra atrás da TV e estica até o videogame. Antes do HDMI surgir e trazer paz de espírito à humanidade, tivemos uma longa história de como se ligavam coisas nas TVs. Tínhamos os cabos vídeo componentes, aqueles cinco cabos, azul, verde, vermelho, branco, e vermelho de novo, que quase nenhum videogame tinha, ou não vinha de fábrica na caixa. Muito menos se sabia na época onde comprar um, mas vinha um cabo num padrão ainda mais antigo. O saudoso cabo RCA conhecido popularmente como áudio e vídeo. Além desse também existia um mais incomum, pelo menos aqui no Brasil, o S-Video chamado erroneamente de super vídeo. O “S” faz a sigla Separate Video, então o nome correto por extenso seria esse, e não super vídeo como se ouve muito por aí. Antes ainda desse também tínhamos o RF, e era esse bendito conector que plugávamos ou enroscávamos na entrada da antena da TV para ligar os videogames antigos. Claro você ainda poderia querer ligar aquela belezura de Atari 2600. Nesse caso você precisaria de algumas ferramentas. Serra tico-tico, alicate, fórceps, betoneira, ou também poderia resolver com uma chave de fenda pequena. Se não estivesse num dia de sorte iria precisar usar também uma lâmina, ou mesmo apelar para os dentes, pra conseguir descascar a ponta do fio e poder fixar nos dois parafusos que conectavam à antena. A caixa comutadora entra nessa parte. Ela tinha um botão seletor que permitia alternar entre o sinal normal da antena para assistir programação da TV, e o sinal do videogame. Daí como mágica, ao colocar no canal 3 da TV, você era agraciado com aquela belíssima imagem em 0,04K de resolução, bordas arredondadas e cantos verdes da TV quase falecendo. Esse era um momento onde não era incomum passar raiva. Eram raras as vezes que um cartucho funcionava de primeira, e também raras as vezes que estava tudo ok e pronto para jogar sem a imagem estar horrível por conta do cabo da antena já estar sofrido pela vida. Ainda tinha um terceiro detalhe, as TVs daquela época não eram como as de hoje onde tudo é ajustado por um duende anão dentro dela. As TVs precisavam de ajustes, vertical, horizontal, e até foco nas muito antigas. Só depois de tudo isso checado, ter ficado metade da vida assoprando o cartucho até funcionar na base do cuspe, que finalmente era hora de relaxar e curtir.

Atari

Te faço a grande pergunta: visto a dificuldade que se tinha pra conseguir jogar, faz sentido o preciosismo de quem se empenhava a passar por toda essa pindaíba pra se divertir? Antigamente pensar em jogar videogames já era uma grande aventura, afinal, quem com 30 e poucos nunca ouviu um chinelo cantar por jogar videogame naquele tubão colorido de 29 polegadas da sala achando que estava se escondendo dos pais? Época boa. Hoje são só histórias, mas que acho importante lembrar e fazer as gerações mais novas conhecerem para entenderem como a vida se tornou, e continua se tornando mais confortável. Os motivos das pessoas jogarem podem ser vários, mas o principal é que até hoje muita gente apenas não quer correr o risco enorme de fraturar uma perna brincando na rua, ou mesmo ser atingido por um meteoro desgovernado.

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