Filmes Clássicos

Quantas vezes você consegue assistir uma mesma coisa sem sentir o tédio da repetição? Eu pelo menos sou o tipo de pessoa que não tem o hábito de repetir rituais de ver um filme duas vezes ou mais, como imagino ser o normal para fãs entusiastas de franquias como Guerra nas Estrelas ou O Senhor dos Anéis. Claro, sempre tem aquele que passando oitenta e seis vezes na sessão da tarde, você vai ter preguiça oitenta e seis vezes de trocar de canal, e quando percebe o filme acabou. Curtindo a Vida Adoidado ou O Último Guerreiro das Estrelas eu devo ter visto mais do que as vezes que repetiu Chaves no SBT. No entanto houve uma situação especial para mim que até hoje eu não compreendo bem o motivo de ter ocorrido.

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Sempre fui fã de Steven Spielberg, e desde muito pequeno tenho ciência de que E.T.: O Extraterrestre tinha um criador, sendo assim tudo que eu descobria ter a mão desse cara eu queria consumir. Foi desse jeito com Indiana Jones, De Volta para o Futuro, Goonies, Gremlins, Hook, Jurassik Park, e muitos outros. Spielberg parecia ser um bisbilhoteiro cartomante dentro da minha cabeça, e me entregava exatamente aquilo que eu não sabia, mas almejava consumir pra ontem. E acho que meu pai notava isso, porque não era eu quem corria atrás de filmes, era ele quem chegava em casa com VHS para assistir. Eu era muito pequeno, não fazia ideia do tipo de cegonha que trazia filmes ao mundo, só sei que um dia ela trouxe O Império do Sol, e nossa, assisti o precoce Christian Bale quando eu devia ter a idade que ele interpretou o papel. Esse filme me fez me fez compreender do que se trata valorizar a vida. Fez notar que inventamos demônios gigantescos apenas pelo prazer da autopiedade, por uma desnecessária autodestruição. Nos dá um tapa na cara e mostra o quanto somos apenas babacas reclamando por pouco, enquanto semelhantes sofrem dores verdadeiras, e mesmo assim não se entregam ao vitimismo. Porém, embora de extrema importância na minha vida, não foi O Império do Sol que me fez assistir num mesmo dia, três vezes seguidas a mesma coisa, mas sim A.I. Inteligência Artificial. Motivo? Também me pergunto até hoje.

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Devia ter dezessete ou dezoito anos, e se não me engano foi o primeiro filme que aluguei em DVD quando a tecnologia ainda era novidade no Brasil. Mas o motivo da obsessão de assistir repetidas vezes não foi pelo vislumbre da surpresa com a qualidade de imagem, mas sim pelo filme em si. Eu não sei como as pessoas conseguem transcrever seus sentimentos por algo de grande apreço, pra mim vem tudo de uma só vez, fico sem saber criar um roteiro pra explicar quais pontos e razões pelo qual valorizo aquilo. Dizer que as atuações são maravilhosas, a direção é espetacular, a fotografia, figurino, efeitos especiais, trilha sonora, enfim, qualificar essas coisas me parece chover no molhado. Todo mundo conhece o selo de procedência dos produtos com o selo Spielberg’s Finger. Óbvio, tirando Super 8, filme onde Spielberg estava com chikungunya no decorrer da produção, certeza.

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Recordo de ter ido sozinho na locadora num dia de semana e alugado A.I., acho que tinha recém concluído o ensino médio. Não tinha mais ninguém em casa e me acomodei para assistir com certa euforia. Já estava entusiasmado pelos trailers de cinema, que na época eram bem mais caros que hoje em dia, então esperei sair nas locadoras. Esse filme tinha o ar um pouco diferente da pegada de Spielberg, era mais lento, bem mais reflexivo e contemplativo com simbólicos vazios. Te apresentava coisas e oferecia o tempo certo para absorção, era um um copo de veneno e outro de soro, você era imerso numa atmosfera pesada e cruel. Eu não conhecia muito sobre a temática inteligência artificial além do mostrado no filme Matrix ou em O Exterminador do Futuro, e juro, não fiz associação direta até então com Pinocchio. Mesmo com essa idade eu não tinha assistido nem o clássico da Disney, não sabia o que representava o personagem do italiano Carlo Collodi, sendo assim tudo era muito novo pra mim nesse filme.

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A melancolia da percepção de ser observado com curiosidade e medo, e do sentimento de necessidade em se encaixar num ambiente onde fora jogado sem seu consentimento, tudo isso embora sutil, era densamente claustrofóbico. Paradoxal com o certo ou errado, te afoga numa ânsia contínua de querer uma resolução onde todos fiquem bem, mas conforme o filme desenvolve, é notável cada vez mais isso distanciar. Aos poucos o universo vai se expandido para o pequeno rapazinho, as fronteiras não podem ser mais vistas, e isso torna as coisas bem mais difíceis. Se sua busca já era difícil naquela pequena caixa de areia conhecida, quando entregue uma segunda vez ao mundo, e mais uma vez sem seu consentimento, toda uma enxurrada de vaidade alheia fora jogada sobre sua cabeça de uma só vez. Não havia jeito, sozinho seria impossível a sobrevivência. Era necessário a evocação de um guia, compreensível e almejado por quem assistia. Agora a unidade da dupla, de presença e consciência, tinha um segundo membro, com malícia, impulsividade, uma bússola melhor, e portando ainda um confuso, porém bom coração. Mestre e aprendiz preparados para busca ao impossível.

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O momento chegou, então diga, qual a sua maior vontade? Pelo que vem de tão longe pobre menino querendo ser homem?

Para eu ou você a dor do tempo seria mortal mesmo que imortal fôssemos, somos o resultado da vaidade, incapazes de entendermos a futilidade do que é o esperar. Considere esse aviso e leve consigo.

A presunção de se por importante te deporta da importância e não sobrevive ao tempo. Nem mesmo o frio te hiberna, ele te apodrece. Então queira pouco, queira o que tem, queira o que pode, e mais importante, guarde o pouco conquistado e doe o que ainda não tem.

Terminei o filme a primeira vez. Assisti aos créditos pensativo sobre o que me faltava entender, então rebobinei o DVD e coloquei mais uma vez. Compreendido a trama central você consegue ver novos espectros paralelos de cada ato. Percebe a intenção sutil em cada escolha das poucas palavras e dos muitos silêncios. Sem grandes estripulias ele era uma rocha simples, qual não precisava ser mais lapidada para ser atraente. Pausei o filme em alguns momentos refletindo comigo mesmo enquanto tentava encaixar não peças de trama, mas pedaços de memórias, crenças e decisões. Cada personagem tinha sua carga e coerência, todos tinham suas razões de serem e agirem. Compreendo na segunda tentativa que a mortalidade também não tem culpa, e que o juízo pelos erros não devem ser julgados. São atos, dolorosos, egoístas, mas que não sobrevivem, e muito menos detêm tempo para tal. Concluído o segundo round já embarquei imediatamente no terceiro, queria com a nova visão decretar se aquele filme era de verdade o meu filme de cabeceira. Eu tive razão ou me forcei ter, não importa, tive que comprar uma nova cama com cabeceira.

AI

Engraçado é você assistir um filme três vezes num mesmo dia e ainda ter a necessidade de buscar por curiosidades por trás das câmeras. E muito intrigado fiquei quando descobri essa não ser uma obra original do meu tio Spielberg, mas sim a herança de Stanley Kubrick. A crítica também não espelhou meu sentimento, alguns gostaram, alguns gostaram muito, e outros nem gostaram. Criticaram o final, qual a grande maioria certamente não entendeu. Boa parte da crítica estigmatizou o filme por total ignorância de interpretação, o fim era perfeito, a mais bela cereja. Como pode alguém não ter apreciado tão esforçada pintura? Será que era eu o estranho? Mas do que isso importa? Não era o não levar prêmios que faria o filme ser menos maravilhoso para mim. Ele era reconhecido por mim. Mais uma vez Spielberg me surpreendeu com algo que eu não sabia mas precisava ter.

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