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Pra muita gente o primeiro filme em animação talvez tenha sido o Toy Story original de 1995, mas curiosamente pra mim não foi. Existe uma briga pelo título de primeira animação feita na história, e nesse ringue está Toy Story de um lado, e o não muito conhecido Cassiopeia do outro. E foi com esse último a minha inserção no universo da animação computadorizada, popularmente conhecida como CG ou CGI. Vale como curiosidade entender como se dá essa briga pela honraria de um título. O período de desenvolvimento de ambos é bem parecido, e se for colocar na ponta do lápis, Toy Story realmente fora lançado um pouco antes. No entanto existe um pequeno detalhe técnico na diferença de confecção de cada animação. Enquanto em Cassiopeia a animação é integralmente feita com tecnologia de computação gráfica de potentes 486, e se não sabe o que é isso, melhor nem querer saber, Toy Story tem o diferencial de as cabeças dos personagens terem sido moldadas em argila e depois digitalizadas pela Polhemus 3D. Cassiopeia é da brasileira NDR, sim, acredite, você tem motivos pra se orgulhar do seu país brigar pelo mérito de ser o primeiro em algo, assim como Santos Dumont com seu 14-bis.

Cassiopeia

Tretas à parte, e vencendo ou não a disputa pelo título, temos de admitir que a animação da Pixar é muito melhor que nossos viajantes espaciais. Toy Story estreou gerando um grande alvoroço ao redor do mundo, com personagens carismáticos e um enredo que agradava crianças e vovôs. Não lembro exatamente como foi minha experiência inicial quando aluguei a animação, não vou inventar uma historinha bonita só pra ilustrar o momento, mas tenho na memória um carinho tremendo pela mensagem trazida. A celebração da inocência e da amizade é algo contado de forma ímpar, e marca na gente os dilemas e problemas superados visando sempre o bem coletivo. É uma obra que ensina a repartir, ter lealdade, o ápice da hombridade, que é a verdadeira essência da busca pela felicidade.

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Um trabalho tão primoroso como esse deixava toda sua cadeia de fãs apreensivos por uma continuação, e a Pixar não decepcionou, após 4 anos do premiado primeiro filme, trouxe Toy Story 2. Quantos filmes você recorda ter uma continuação melhor que o original? Claro que tem, mas são bem poucos. E esse é o caso. Toy Story 2 conseguiu faturar quase meio bilhão de dólares, mais de 100 milhões que a receita do filme anterior. Tudo bem que o primeiro tenha tido um orçamento de 30 milhões, e o segundo 90, mas mesmo assim são números impressionantes. Se tornou a animação mais lucrativa de todos os tempos até então, e não vou enumerar quantos prêmios recebeu, mas acredite, foram muitos!

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A franquia esbanjava vivacidade, tendo grande repercussão por anos na expansão de seus derivados comerciais. Um produto com o hiato de 10 anos ainda trazia lucros com bonecos e jogos, e embora boatos de uma terceira animação existissem desde o término de Toy Story 2, nada se consolidava. Foi quando o planeta Terra, e vamos saber lá mais quem nos observe de fora, entrou em êxtase. O tão almejado novo filme havia sido anunciado. A internet se desesperou. Não faltavam notícias e comentários sobre essa boa-nova. Até que no dia 18 de Junho de 2010 o bebê veio a luz, geminiano, e todos queriam pegá-lo no colo e chamá-lo de seu. Você acredita que o inacreditável aconteceu? Eu juro pra você, ele tinha conseguido mais uma vez. Superou a segunda animação que tinha superado a primeira! O nome Toy Story definitivamente tinha nascido com a bunda virada pra Lua!

Toy Story

Que filme fantástico! Quando a gente é fã de algo nunca imaginamos que aquilo possa ser ainda mais lapidado, mas foi sim o caso. Ecoavam elogios por todo o lado, e nem precisava você ter internet, o assunto transbordava e escorria até você na porta de casa. Lembro ter ouvido o comentário onde Quentin Tarantino disse, “grandes poderes trazem grandes…”, não, pera, esse é o do Tio Ben. Tarantino na verdade falou foi o seguinte, “Com certeza traz a melhor cena do ano, talvez a melhor da década. Uma das melhores da história do cinema”, se referindo aos lançamentos de 2010. Anualmente ele divulga sua lista dos vinte melhores filmes, qual Toy Story 3 encabeçava. Em vigésimo, vale citar, estava Jackass 3D (merecido (ou não)).

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O mundo era lindo, uma trilogia impecável. Feito comparável apenas ao quarto, quinto e sexto episódios de Star Wars. Não, nem De Volta Para o Futuro conseguiu isso, se escafedeu no terceiro. O limite da natureza é assim, as coisas funcionam em grupos de três. Até as Marias são apenas Três. Perfeição. Nada mais, nada menos. Sendo assim eu vivia minha vida pacata, vez ou outra eu recordava da conclusão daquela memorável saga e sentia borboletas no estômago de tanta nostalgia. Eu devia estar tomando chá e comendo torradas amanteigadas feitas em casa enquanto discutia sobre a cabeça de algum político numa bandeja, quando provavelmente devo ter cuspido sopa de torrada com chá e baba na cara da minha mãe, ou tia, durante a mesa do café às 16 horas, quando eu li no Fofocas & Bisurdos News que Toy Story 4 havia sido flagrado em produção num estúdio por abutres paparazzis.

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Isso não podia estar acontecendo comigo. Com certeza eu havia morrido, e como gratificação pelos bem feitos durante a vida, o Menino Jesus estava lançando uma nova sequência de Toy Story só pra mim. Não precisava Menino Jesus. Mas se quis, tudo bem. Devo ter tomado um tapa na cara. Da minha mãe ou tia, não sei em quem acertei a cusparada, estava mais preocupado olhando pra baixo, no celular, aquele quatro brilhando. Voltei à realidade e compreendi que a Pixar Animation Studio, do grupo Walt Disney Company, realmente estava virada no Jiraiya e soltaria realmente o Toy Story 4. Pronto! Bateu a preocupação. O Menino Jesus fazer o quarto filme alterando a natureza e superando a regra das trilogias é uma coisa, mas não seria um fruto divino, seria só a Pixar. Isso não poderia acabar bem.

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Dia 23 de Junho, aniversário de casamento, e decidimos ir ao cinema assistir Toy Story. Eu não quis nem saber mais coisas relacionadas ao filme depois que descobri que não estava morto. Me mantive receoso mas tentando me abster de qualquer sofrimento prévio. Saímos de casa e fomos à pé até o shopping para assistir a película. Eu sabia que estava me tornando um dos malas da ‘Seleta Ordem dos Críticos Cults de Cinema’, e que isso não era bom. Devia ter escolhido a palavra “projeção”. Enfim. Chegamos ao cinema e era aquilo, setenta e três crianças para cada dois adultos. Eu tive dó. Aquelas crianças não eram nem nascidas quando a trilogia foi fechada. Pelo lado bom pra elas, era que não agonizariam em sofrimento caso se decepcionassem pela mediocridade que poderia vir se tornar esse filme. Calei minha boca, não desliguei o celular, já que ninguém ligava pra mim mesmo, e continuei a mastigar batata frita engolida por auxilio de Coca-Cola já quente.

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A projeção começara, e os cochichos foram diminuindo gradualmente conforme aquela horda de pivetes iam se hipnotizando. Não sei como continuar esse texto sem dar spoilers, a memória é recente demais e portanto perigosa. Mas vou analogiar, o infinitivo é meu e invento o que eu quiser, se não gostou me processa. Analogiando nós podemos comparar com Vingadores: Ultimato. Uma conclusão que não necessariamente precisa ser uma conclusão, mas estruturalmente um fechamento de ciclo. Um desfecho cheio de simbolismo e trazendo à tona aquele sentimento de pureza que se via no primeiro filme. A amizade e lealdade nunca havia chegado num patamar tão alto como o de agora. Mas um novo elemento surgia no quarto filme. Literalmente aquela menina era a representação do Menino Jesus. Não transformava água em vinho, não multiplicava os peixes, mas sim, trazia vida do lixo. Do lixo! O novo elemento era “a criação”! Se você acha que Toy Story se resumia em apenas brincadeiras e aventuras em meio ao sentimento de paz interior por ter seus amigos sempre ao redor, é porque ainda não assistiu Toy Story 4. Do lixo cara! Do lixo temos o entendimento do que é o universo de Toy Story. Temos a transcendência do que realmente é a vida. De onde ela brota e do seu valor. Nos faz entender que valorizar a simplicidade da vida é o bem maior, a verdadeira essência da essência!

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CONCLUSÃO
Mas afinal, tirando esse ultrapieguismo de novela mexicana, o filme é bom? Eu ainda não consigo acreditar, mas não apenas bom, melhor. Muito melhor que o terceiro! Como conseguiram isso eu não sei, talvez com auxílio de mentes de alienígenas superdotados superestimuladas com LEGO Creator Espacial combinado com Arduino desde a infância. Só sei que meu cérebro foi bombardeado com sequências gigantescas de piadas da mais alta qualidade e sagacidade, resoluções de roteiro extremamente criativas, sendo tudo bem amarrado e contracenado por atores mais experientes do que nunca, Woody e seu seus pares estavam divinos. A sensação que deu é que a animação não durou 30 minutos. Foram um dos melhores 100 minutos da minha vida. O filme que quebrou a regra dos 3 e a regra da vida. Lixo!

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