Final Fantasy VII

Se algo é bom a gente valoriza pelo que é. Respeita a obra caso tenha alguma limitação temporal, entendendo que sua intenção se encaixava ao momento onde fora concebida. E existindo a possibilidade de voltar para respirar nostalgia, local onde conseguimos metade do prazer além da própria arte, já deveríamos ter o suficiente e mais um pouco para nos sentir satisfeitos. Por si só já deveria ser maravilhoso as coisas serem assim. No entanto isso se dá quando algo é bom, mas quando algo é muito bom, recebendo o advérbio de intensidade, o pensamento deveria ser outro? Os detentores de feitos premiados sentem-se com um bilhete de eterna riqueza nas mãos, e ficam tentados em explorar ainda mais aquilo pra tirar até a última gota de suor e grana. Quando um trabalho tem potencial de gerar um universo expandido é uma coisa, mas quando o idealizador é apenas ambicioso e nada criativo, o tiro não quase sempre, mas sempre sai pela culatra.

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A Fantástica Fábrica de Chocolates, quem não lembra desse clássico com o maravilhoso Johnny Depp? Bem, quase ninguém. E quem lembra quer esquecer, certamente. Você poderia ressuscitar Marlon Brando e colocar no filme, ainda assim não seria tão bom quanto o original de 1971, com o verdadeiro Willy Wonka protagonizado pelo imortal gênio do humor, Gene Wilder. O que faz uma edição ser melhor à outra sempre é um mistério. Poderia dizer que o primeiro filme possuía mais comprometimento e amor sincero dos idealizadores, mas uma ova, é uma visão infantil sobre as coisas, e principalmente sobre a indústria cinematográfica. Um ambiente selvagem rodeado de produtores sanguessugas e outras víboras vaidosas, é assim que um intelectual sobrevivente da dura vida enxerga a realidade. Nada de docinhos para cordeiros, é à panela de barro pós abate, seu único futuro real. Assim são os negócios, a estima por grana, dinheiro e bufunfa estão sempre por trás de qualquer obra, até mesmo do Ursinhos Carinhosos.

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Será mesmo que os remakes são sempre os vilões? Há quem entenda que um conteúdo precise de uma nova roupagem para atrair o público contemporâneo. Que efeitos especiais se tornam datados, que diálogos precisam se adaptar ao ambiente moderno, e que a cultura ao redor pede as vezes até uma nova narrativa. E aí, em exemplo, entra uma promessa que muito me alarda, o remake do jogo Final Fantasy VII, original do primeiro Playstation que foi lançado em 1997.

Monalisa

Quem é verdadeiro fã dessa franquia, com certeza já conferiu esse que é um dos melhores, ou mesmo o melhor de toda a série. Eu particularmente não considero o melhor Final Fantasy, mas é com certeza o que mais gosto, mesmo tendo suas limitações. Quando surgiu o anúncio que Square Enix planejava literalmente refazer o jogo eu fiquei tenso. Não de felicidade ou ansiedade, mas de angústia mesmo. Fiquei triste sabendo que repintariam a Monalisa. E logo em seguida emputecido por descobrir que terceirizariam a produção, deixando à cargo de um estúdio sem qualquer histórico ao menos com o gênero.

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Mostraram em conferência mundial um God of War! Mais um maldito jogo nutella para criancinhas infelizes com a vida esmagarem botões! Aquilo nem de longe era um Final Fantasy, menos ainda um Final Fantasy VII. Parecia o trabalho de modder herege colocando a skin do Cloud num hack and slash genérico qualquer. Bonito? Sim. Mas e daí? Imperdoável! O que eu fiz? Nada! Escondi o que vi no meu subconsciente e risquei aquele projeto de jogo do meu plano espiritual. Que merda cara! A essência de um jRPG mágico com sistema riquíssimo de gameplay, e agora tinha tudo sido jogado descarga à baixo.

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Dia 10 de Junho de 2019 era uma segunda-feira, dia da semana que pouca gente está bem humorada. E eu ainda não sabia, mas tomaria um tapa na cara. Tapa de boi, com ferradura e tudo. Não sou de ficar acompanhando premiações de nada, e menos ainda conferências com promessas hypadas de grandes produtoras. Era período de E3, seguidos dias onde empresas da indústria dos jogos eletrônicos contavam mentiras sobre seus produtos para iludir consumidores ingênuos, diferente de mim, claro. Thor é testemunha, e Jeová também, pois não sei que raios houve que a apresentação do odioso novo Final Fantasy VII caiu no meu colo, com comentários dos diretores sobre o que era mostrado e tudo mais.

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Voadora de sola no meio do peito direto da tela do computador! Sorte que tinha um monitor extra pra continuar a assistir, porque quebrou. Buster Sword com slots de materia! Detalhe, visível em gameplay! Barra de stamina, sistema similar à um ATB, e cacetada, a batalha fica em câmera lenta para seleção de funções especiais! Outro monitor, o da minha mãe. Apareceu o Barret. Sentando o dedo à distância como num jogo de ação em terceira pessoa, bem diferente da forma de jogar do Cloud. Quanto a transição de um personagem à outro, tudo é fluído. No instante em que você assume um personagem o outro é controlado por inteligência artficial de forma eficiente. Tifa é apresentada um pouco diferente com relação ao original, mas com certeza tendo a coluna menos judiada. Arranca gritos histéricos do público no evento, mas que gente boba. Brigando como uma lutadora de MMA, mostra um sistema de colisão e gravidade digno de um jogo esportivo, e mais uma vez com a jogabilidade diferente dos demais. Simplesmente brutal! Todo pequeno detalhe que se imaginava potencialmente ignorável estava lá, seja design dos personagens, inimigos, locações, definitivamente tudo respeitando a atmosfera densa do original. Um trabalho primoroso não só capaz de surpreender um desavisado sedento por pirotecnia gamística, mas um deleite aos fãs daquele jRPG tradicional de turnos.

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Revelaram a data de lançamento, 3 de Março de 2020, não estava muito longe. Continuaram na pauta do jogo ser ofertado em partes, e que a primeira parte se referiria apenas ao episódio de Midgar. Na versão original do primeiro Playstation isso significava cerca de no máximo 10 horas de jogo, mas foi informado que o remake traria uma nova narrativa daquele momento. As locações seriam maiores dando mais acessos, e novos eventos e missões seriam criados do zero. Sendo assim não é possível precisar quanto tempo de duração terá apenas esse início, qual será distribuída numa edição com dois discos de blu-ray.

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Tudo está muito bonito e sendo feito com bastante esmero, mas permanece um grande receio. Enquanto no passado lançavam os jogos como obras completas, hoje tudo é explorado de forma descabida com o bom senso. Estou falando dos DLCs, conteúdos extras vendidos paralelamente aos jogos principais. Não preciso nem explicar que considero a prática algo canceroso à indústria dos jogos eletrônicos né? Final Fantasy VII é um prato cheio para ser fragmentado e explorado de forma abusiva, e isso em vários níveis. Personagens como Yuffie, Vincent, e Cat Sith, invocações diversas, inimigos secretos, sem contar os spin-offs como Crisis Core, Dirge of Cerberus, Before Crisis, e até mesmo as animações, tudo isso tem potencial gigante de ser vendido como DLC. E isso não só fará as coisas ficarem muito bagunçada, mas também muito caro. A Square Enix sabe disso, mas espero estar errado, que façam a coisa de forma séria, afinal, o jogo está sendo feito com comprometimento e amor sincero dos idealizadores, tenho certeza!

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Remakes não necessariamente são piores que seus originais, existem casos onde o trabalho mais atual alcançou um patamar muito superior. O melhor exemplo que me recordo é o filme Os Infiltrados (The Departed), de Martin Scorsese, que é uma refilmagem de Conflitos Internos (Mou gaan dou) de 2002. Uma mosca branca existente no curto catálogo de bons remakes, mas que entra no comentário inicial sobre ambição e criatividade. No caso de Final Fantasy VII certamente a ambição está ligada com o projeto, no entanto a qualidade criativa é indiscutível. Já em Os Infiltrados não se tinha nada expressivo ou de apelo público para ser explorado, no máximo era um filme estrangeiro com um bom plot qual Scorsese enxergou um grande potencial.

Podemos concluir que refazer as coisas não é exatamente um problema, mas é necessário cautela sobre a ambição desenfreada. Não basta apenas o querer fazer de novo pra ganhar de novo, é necessário ter a mão correta, o momento certo, as ideias muito bem estabelecidas, diferente disso a probabilidade de manchar um legado é gigante. E pensando bem agora, depois de ter assistido à apresentação da E3, eu não tenho mais raiva da Square Enix, tenho é ódio por ter usado sua lábia e me transformado em um consumidor ingênuo sem que eu pudesse notar. Podem ter certeza, eu jamais trairei o clássico original, nunca porei minhas mãos numa cópia deste jogo enfadonho. Pra falar a verdade, até acho RPG coisa de nerd virjão! Que se dane FFVII! Jogarei apenas jogos de futebol! Até comprei Football Manager 2019.

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